quarta-feira, 22 de novembro de 2006

23 - Lágrimas por Fehér

Miklos Fehér foi um jogador de futebol com tudo para ser bom, um ponta-de-lança que tinha um largo futuro à sua frente, até porque jogava no Benfica, o maior clube português e um dos maiores do mundo. Numa noite fria em Guimarães, viu um cartão amarelo, sorriu para o árbitro e caiu morto. Eu assisti a tudo em directo pela televisão, na minha casa nas Flores. Eu e o meu colega Merêncio ficámos sem saber o que dizer, e a mim só me apeteceu escrever...

Sinceramente, não sei o que dizer. Contradição estranha para quem acaba de começar a escrever um texto, mas é a mais pura verdade. Acabo de ouvir a confirmação da morte de Miklos Fehér, um jogador de futebol com apenas 24 anos e um futuro promissor à sua frente. Assisti a tudo na primeira fila em que se transformou a televisão, e partilhei com a equipa cada segundo de sofrimento, bem visível nas expressões de cada um deles…
Tão cedo não vou esquecer os gritos de Tiago, com as mãos agarradas à cabeça, a expressão inconsolável de Bossio, o choro convulsivo de Pepe Carcelén e, muito especialmente, as lágrimas de Camacho. O homem da cara de pedra chorou como nunca imaginei ser possível, como quem sabe que viu um filho às portas da morte. Não esquecerei tão depressa a lição de humanidade dada pelos jogadores e pelo público de Guimarães, a gritar em uníssono o nome do infeliz jogador que veio da Hungria tentar a sorte em Portugal.
Por uma vez, pude ver num estádio de futebol os mais básicos valores da condição humana em plena harmonia, com treze mil pessoas esquecidas da razão que ali as levava e com um único pensamento em mente, a recuperação do jogador. Pude ver o sentimento de solidariedade, pude ver que sim, é verdade que os homens também choram, e pude ver e ouvir duas coisas que não queria ter visto nem ouvido: a primeira é que estamos mesmo mal servidos de jornalistas, e a segunda é que as coincidências, o destino, ou lá o que lhe queiram chamar, existem.
Não consigo transmitir a raiva que sinto pela ânsia cega de “informar” que levou supostos profissionais de comunicação social a colocar em causa a forma como o jogador foi assistido ainda com ele estendido no relvado. Que sanha assassina é esta que leva a colocar primeiro uma eventual falha na organização dos meios médicos e só depois o olhar sobre aquilo que de facto estava a acontecer? Pareceu-me claro que estavam quase todos mais interessados em arranjar mais uma polémica em nome do Euro 2004 (raios o partam!) do que em ver Fehér levantar-se e sair pelo próprio pé. Ainda estava o homem na sala de reanimação do hospital e já a rádio entrevistava o presidente da comissão parlamentar de acompanhamento do Euro 2004 e perguntava-lhe se ia ordenar a abertura de um inquérito. Um inquérito a quê? O homem tinha acabado de dizer que estava em viagem, que não tinha visto imagens de nada, ia mandar inquirir o quê?
Se a estupidez matasse, Fehér ainda estava vivo e a comunicação social de luto…
Valha-nos a lucidez de dois homens de quem até nem sou grande admirador: Valentim Loureiro e Pimenta Machado. Ambos deram um banho de “chá” aos seus entrevistadores, dizendo claramente que a hora não era de pensar em tolices, mas sim de rezar, rezar fervorosamente. O troféu da dignidade jornalística vai, no entanto, direitinho para Miguel Prates, o pivot da emissão da SportTV, que disse mais ou menos isto: “…imagens essas que pudemos ver em directo e que não iremos repetir por não acrescentarem nada à trágica situação que se vive neste momento em Guimarães.” Decência, dignidade e profissionalismo ao mais alto nível, numa atitude cada vez mais rara.
Quanto às coincidências… até me arrepio quando penso nisto, mas cá vai: Fehér não jogava há mais de um mês, se a memória não me falha, e se Nuno Gomes não se tem lesionado quase de certeza que hoje também não jogaria. Teria ficado sentado no banco a sofrer por fora, e quase de certeza que neste momento estaria já sentado em casa a rogar pragas a Camacho por não o pôr a jogar…
Quanto a si, não sei, mas o que vi hoje mudou algo em mim: vou passar a dizer mais vezes aquilo que sinto, para o bem e para o mal. Não quero que chegue o dia em que lamente não ter dito “amo-te”ou “odeio-te”. Viver na economia e no conforto de se “saber” que amanhã se há-de fazer o que hoje ficou para trás, decididamente, vai fazer cada vez menos parte do meu dia-a-dia. Convido-o a fazer o mesmo.
Até um dia, Fehér.

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