quarta-feira, 8 de novembro de 2006

17 - Os papo-secos do Corvo

A ilha do Corvo é o bocadinho mais pequeno de Portugal. É onde o país re reduz à mais ínfima expressão, e é um sítio com uma atmosfera muito particular, quase com leis próprias. Não há polícia, apenas Brigada Fiscal da GNR, as regras de trªansito são feitas à medida, e toda a gente vive feliz, dentro das condicionantes. Estive lá três dias, e vim impressionado com o tamanho dos papo-secos.

Sempre tive curiosidade em conhecer o Corvo. Admito que me fazia muita confusão saber que há uma ilhota aqui perto onde vivem apenas quatrocentas pessoas. O que poderia justificar que aquelas almas quisessem viver longe de tudo e de todos, sujeitos a ficar sem abastecimento exterior por mais de um mês se o mar não colaborar? Mesmo ali ao lado, dos males o menor, havia outra ilha, maior e se calhar melhor para se viver…
Dizer que o Corvo é uma ilha linda em termos paisagísticos é talvez um exagero, apesar de o Caldeirão merecer figurar em qualquer álbum de fotografias deste mundo. As ruas de Vila Nova do Corvo têm o encanto único de tudo aquilo que não foi pensado para que lá circulassem automóveis; incrivelmente estreitas e sinuosas, fazem com que a qualquer momento imaginemos que vá aparecer uma carroça ou um burro com uma bilha de leite de cada lado… Lembro-me ainda de ouvir dizer na nossa televisão que tinha havido um acidente no Corvo numa altura em que por lá só existiam dois ou três carros!
Hoje os carros no Corvo são mais que muitos, e as ruas novas já foram feitas a pensar neles, daí que as semelhanças com uma cidade “a sério” sejam cada vez mais. Contudo, a grande diferença que encontrei no corvo foi no tamanho dos papo-secos! Nunca vi papo-secos daquele tamanho nem tão saborosos. Aquilo é pão! Já não comia pão com tanto prazer desde… sei lá! Desde que a tia Celestina parou de cozer, já lá vão mais de dez anos! Na ilha mais pequena do arquipélago fazem-se os maiores papo-secos. Pode parecer uma associação de ideias estranha, mas acho que é mesmo por causa disso. Nalguma coisa os corvinos haviam de ser os maiores, e por que não nos papo-secos? Têm o aeroporto mais pequeno, o porto mais pequeno, a escola mais pequena, a estrada mais pequena, a igreja mais pequena, o hospital mais pequeno, por que diabo não haviam de ter os maiores papo-secos? Nem polícia eles têm!
A população, nota-se, gosta da sua ilha, e é com pena que vê partir os mais novos para estudar fora, mas é a lei da vida, e só lhes resta esperar que voltem… se o mundo não os seduzir entretanto. Quem regressa são os emigrantes, que nunca esqueceram a terra onde nasceram, e que trazem dinheiro fresco para gastar, e motas cromadas, e roupas coloridas e bigodes amarelos e…
Agora que já fui ao Corvo, posso dizer que a resposta para a minha pergunta inicial está nesta nossa maneira de ser ilhéus. A nossa ilha não precisa de adjectivos ditos por um qualquer estrangeiro, mesmo que venha da ilha ao lado. A melhor forma de caracterizar a nossa ilha é simplesmente através do possessivo: NOSSA!
E quanto maiores forem os papo-secos, melhor…

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