terça-feira, 7 de novembro de 2006

6 - A cadeira do barbeiro

Esta é uma das minhas preferidas. Surge na sequência de uma coisa que até pode parecer estúpida mas que para mim traz recordações e tem os seus significados ocultos: cortar o cabelo. E para quem nunca cortou o cabelo em cinco anos fora de casa, não era agora que ia começar...

Vivi cinco anos em São Miguel sem ir ao barbeiro. Assim mesmo.
Claro está que nunca andei por aí de gadelha à futebolista, porque aproveitava as férias para tratar dos assuntos capilares, e sempre na Terceira. O que começou por ser uma divertida coincidência no primeiro ano da universidade acabou por se tornar numa espécie de ponto de honra com o qual me divertia, levando por arrasto dois ou três colegas, que ainda hoje me seguem as pisadas, visto continuarem a ser universitários. Há tempo demais, é certo, mas ainda andam por lá.
Se pensarmos bem, isto até tem uma certa lógica, pois não é de ânimo leve que se coloca o pescoço à mercê de qualquer carniceiro com uma tesoura e uma navalha na mão. É preciso estabelecer uma relação de confiança que, sem querer ser paranóico, quase ultrapassa os limites do bom senso. Curiosamente, nunca penso nisto quando vou ao barbeiro, mas hoje de manhã olhei-me ao espelho e vi os primeiros sinais de desorganização no cabelo, coisa que serve de pré-aviso e significa que daqui a um mês estou quase a modos de usar uma bandolete.
Neste caso, significa muito mais que isso. Significa que, provavelmente, vou cortar o cabelo pela primeira vez fora da Terceira, e isso vai mesmo custar-me bastante. Ainda nem perguntei se há barbeiros nas Flores, mas cabeleireiras sei que há, e com salões unisexo, seja lá o que for que signifique este palavrão. É pena não ser possível sair daqui na sexta-feira e voltar na segunda, pois a SATA é pouco simpática neste aspecto, se não ainda aproveitava para ir passar o Pão-por-Deus na companhia de quem me faz falta… e cortava o cabelo no sítio do costume, ou seja, mesmo em frente à União.
Devia ter para aí uns treze ou catorze anos quando conheci pela primeira vez “Os Secas”, e a primeira coisa que me fez confusão foi o letreiro (que ainda hoje lá está) a dizer Cuidado com os palavrões porque trabalham aqui pai e filho. Se não for assim é parecido, mas a ideia é esta. No entanto, depressa aprendi que, para o meu amigo Mestre Pedro, dizer os filhas das putas é apenas uma maneira carinhosa de tratar os companheiros… Ainda hoje lá vou, não só para cortar o cabelo mas também para saber as últimas do Lusitânia, do Angrense e do Boavista da Ribeirinha, pois então!
O mais engraçado é que, de vez em quando, encontro por lá cenas do meu passado, com alguma mãe das freguesias a levar lá o filhote e a dizer coisas do tipo vou só ali fazer umas compras e já o venho buscar, ou vocês não se esqueçam que temos que apanhar a carreira das quatro, numa indirecta para os outros fregueses que estão na vez, a ver se deixam o pequeno passar à frente. Faz parte do ritual. Não só dos fregueses mas também dos miúdos, que durante aquela meia hora ouvem as conversas dos homens e sorriem envergonhados quando alguém lhes dirige a palavra, mas felizes da vida por já se sentirem também um pouco homens, e ansiosos por subir para o pedestal em que por momentos se torna a cadeira do barbeiro.
É por estas e por outras que ainda não decidi se vou procurar um barbeiro nas Flores ou se vou aparecer nas férias de Natal com uma fita a segurar-me o cabelo longe dos olhos, mas uma coisa é certa: já tenho saudades dos meus barbeiros e amigos. Do pai e do filho. E do Espírito Santo das tesouras…

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