Quem não vibrou com desenhos animados quando era criança? Mesmo agora que já entrei nos trinta adoro ver alguns, e nunca esquecerei os clássicos que passaram na RTP-Açores na década de 80. Fazem parte de mim, e não consigo deixar de estremecer sempe que ouço a música do Dartacão. No meu telemóvel o toque principal é o dos Soldados da Fortuna...
Isto de almoçar todos os dias com um grupo de gente saudavelmente maluca às vezes traz surpresas. Fala-se de tudo e mais alguma coisa, com a segunda-feira a ser invariavelmente reservada à discussão dos futebóis do fim-de-semana, mas nos outros dias é o acaso que dita a ordem de trabalhos à mesa. Desta vez, quis o acaso que o tema de conversa fosse ditado por um toque de telemóvel.
Estava toda à gente meia adormecida, às voltas com uma saborosa e soporífera feijoada, quando de repente se fez ouvir um toque que fez soar campainhas nos nossos cérebros: o Dartacão! Quem tem entre 24 e 30 anos certamente se lembra dos simpáticos cães e gatos que levaram até à miudagem a obra de Alexandre Dumas (Os Três Mosqueteiros, para quem não sabe) e puseram a criançada a cantar “Eram uma vez os três / Os famosos Moscãoteiros / Do pequeno Dartacão / Tão bons companheiros. Eu não perdia um episódio, e rapidamente descobri que os meus colegas de mesa também não. Mais do que isso, descobrimos que tínhamos as mesmas referências de criança!
Do Dartacão passou-se à imortal Abelha Maia, a tal que as más-línguas juntaram ao Calimero, que mais parecia um personagem saído da portuguesíssima Árvore dos Patafúrdios, versão portuguesa dos inimitáveis Marretas, que foram também a base da Rua Sésamo e d’Os Amigos de Gaspar. De França vinham as tão espectaculares como educativas séries Era Uma Vez O Espaço e Era Uma Vez O Corpo Humano. Lembram-se?
Do Sport Billy e do Tom Sawyer toda a gente se lembrava, bem como do Conan, o Rapaz do Futuro, o tal que segurava um avião com as mãos enquanto se agarrava à terra com os dedos dos pés… belos tempos! Deixando a macacada, Os Três Dukes preencheram o imaginário de todos nós, e se calhar é por causa deles que tenho esta maluqueira dos carros. Por causa deles e do Homem Automático, dos Soldados da Fortuna, do Michael Knight e do seu inseparável Kitt, e outros que tais. Não havia nada que me separasse da televisão à hora do Justiceiro!
Até as meninas contribuíram com as suas recordações. E se havia rapazes que se lembravam do Verão Azul, coisa de que não tenho memória, nenhum se lembrava da Candy Candy e dos seus caracóis dourados. A memória foi ainda buscar o I’m a poor lonesome cowboy com que terminava o Lucky Luke, mas foi com a recordação das motos da Galáctica e dos lagartos de V, A Batalha Final que a discussão animou. Nem a saga da Guerra das Estrelas gerou tanto consenso como estes dois monumentos à ficção científica juvenil.
Ah! E, claro, havia os clássicos de todos os tempos: Bugs Bunny, o Papa-Léguas e o desgraçado Coiote, Speedy Gonzalez e o Daffy Duck, Porky Pig, Elmer Fudd (o caçador cegueta), Droopy (o cão sonolento) e o Piu Piu.
Depois disto… o vazio. Todos lamentámos a violência gratuita do Dragon Ball, o campo de futebol “arredondado” em que jogava o Tsubasa e onde uma jogada de ataque podia levar dez minutos a chegar de uma baliza à outra… e demos largas à saudade de ver velhas glórias como David, o Gnomo ou as Fábulas da Floresta Verde. Curioso foi ver que toda a gente associava uma série de desenhos animados a uma determinada fase das suas vidas… nisso fomos todos iguais. Quanto a mim, recordo como se fosse ontem o primeiro episódio do Dom Quixote, nos idos de 1983 ou 84. Nesse dia, cheguei a casa com o meu primeiro par de óculos e fui direito para a estreia da história daquele desengonçado cavaleiro andante, sem saber que estava a tomar o primeiro contacto com uma das maiores obras da literatura universal…
Como era bom ver os desenhos animados… e ouvir os habitantes da Floresta Verde a cantar É bom ver na floresta o sol nascer / É bom imaginar o que irá acontecer… numa cantiga que bem podia terminar com o lema dos Patafúrdios: Por incrível que pareça / Por incrível que pareça / Não há nada, não há nada / Que não nos aconteça! / Ó sorte malvada / Que vida desgraçada /Ai ai ai ai / Oi oi oi oi…
Não há por aí uma máquina do tempo que me valha?
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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