quarta-feira, 8 de novembro de 2006

13 - Vamos brincar à guerra?

Eu adorava brincar à guerra ou aos polícias e ladrões com os meus amigos. Os quintais da vizinhança transformavam-se em campos de batalha sem sangue mas com muitas gargalhadas e tiros dados com a boca. Um desses amigos já desapareceu, com a vida roubada no dia a seguir a uma destas brincadeiras. Esta é para ele...

A Primavera tinha chegado em força. Os dias estavam a crescer e dali a dias ainda iam ficar maiores, graças à mudança da hora. A rapaziada já começava a pensar em desbravar mato para fazer um campo de futebol atrás do portão verde que servia de baliza no Inverno, mas a vontade de pegar nas enxadas era tanta que… enfim, digamos apenas que seguiam o velho lema de “antes uma mão inchada que uma enxada na mão”.
Práticos como sempre, e porque o final da tarde estava prestes a ser interrompido pelas mães a chamar para o jantar, era necessária uma ideia para matar aquela hora. Ora para “matar” a hora… deixa cá ver… vamos brincar ao polícia e ao ladrão? Não. Hoje não. Vamos mas é brincar à guerra! Nós os três somos os cábois e vocês dois os índios.
Eu não quero ser índio! És sim, que és o mais feio e já tens bigode!
Rapidamente os quintais se transformaram em campos de batalha, com as faias a cederem bagas para servir de arma aos índios, que nem tempo tiveram de arranjar arcos e flechas. Os cábois arranjaram pistolas num instante: era só levantar o mata-piolhos, esticar o fura-olhos e encolher o dedo mindinho, o seu vizinho e o pai-de-todos…
A batalha foi renhida, mas desigual. Os índios atiravam bagas e escondiam-se o melhor que podiam, mas tinham a desvantagem de se saber sempre se as bolinhas alaranjadas acertavam ou não no alvo. Já aos cábois bastava dar tiros com a boca e dizer Matei-te! Contudo, isso gerava sempre discussão. Não mataste nada! Falhaste! Não falhei nada, acertei-te no meio da testa! És tolo! Tu é que és!
CRÁS! CRAC! BUM!
Estragou-se a brincadeira. Um dos índios caiu da árvore abaixo, partiu quatro ramos, rasgou a camisa e as calças e arranhou a “pintura” toda. A minha mãe vai-me matar! Devia ter tirado estas calças novas… Ninguém te mandou vires para aqui com roupa de ir à missa. Não me chateies, se não digo à tua mãe o que andas a fazer na gruta do pico. Fazes isso e o teu pai fica a saber que lhe roubas maços de tabaco às escondidas!
A coisa azedou, e se não fossem as mães a chamar para o jantar sabe-se lá o que poderia ter acontecido. Claro está que as calças novas que acabavam de ficar velhas foram motivo de conversa à mesa, mas nada que se comparasse à descompostura que levou um dos cábois por ter ido para cima da terra com as sapatilhas novas, alvas da neve. No dia seguinte, na escola, as velhas árvores retorcidas lá estavam como sempre, prontas a servir de nave espacial ou de avião de combate, conforme a inspiração. Isto se tivesse chovido, pois se o chão estivesse seco era dia de São Futebol, já se sabe. Vivos e felizes, os cábois e os índios já não se lembravam de nada do dia anterior. A eles só o momento interessava, e todos os minutos eram poucos para aproveitar o recreio, antes da professora chamar para dentro.
Era dia de Meio Físico, e estavam a ver o mapa do mundo. Aqui fica a América, aqui a Rússia, aqui Portugal, e aqui estamos nós, nestes pontinhos no meio do mar. Ó senhora professora, mas a minha mãe diz que a gente também tem cá um bocadinho da América! Temos a base, que tem aviões e pessoas americanas, mas são muito poucos. Mas ó senhora professora, se a América é daquele tamanho o que é que eles querem de um pontinho no mar como a gente?
Aqui a professora já não soube responder. A pergunta foi tão inocente e, ao mesmo tempo, tão pertinente, que nessa noite adormeceu a pensar que se calhar era mesmo só porque lhes dava jeito. Para os alunos, foi essa a mensagem que passou. Serve para os aviões descansarem quando vão para a guerra.
Animada com a visão dos aviões a descansar, a rapaziada já tinha uma brincadeira nova. Amanhã vamos brincar à guerra, mas com aviões. Eu sou um avião, tu és um carro de lagartas. Mas por que é que tu hás-de ser o avião? Porque eu sou maior e mais velho.
A guerra fez muitos mortos e feridos, mas no dia seguinte, mais uma vez, ninguém se lembrava dela, e só a matemática interessava…
É engraçado ver como somos crianças toda a vida. As brincadeiras é que mudam…

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