quinta-feira, 18 de novembro de 2010

59 - Levem os maricas também!

Esta crónica é um grito de revolta perante várias coisas: a desfaçatez de quem acha sempre que a galinha da vizinha é mais gorda do que a sua, a falta de profissionalismo de alguns jornalistas, a promiscuidade entre jornalismo e política...

Se está a ler isto, das duas uma: ou ficou curioso ou ficou ofendido com o título, mas asseguro que a minha intenção, apesar de politicamente incorrecto, não é ofender ninguém, e quando acabar de ler este artigo vai perceber.
Quando há coisa de ano e meio atrás escrevi sobre a t-shirt dos toiros micaelenses e sobre a confissão de um amigo agente de viagens que me disse que a sorte do turismo terceirense era não haver touradas em São Miguel (pode reler o texto em www.eternoestudante.no.sapo.pt), não me passava pela cabeça voltar ao assunto, e muito menos nestes termos, mas a peça “jornalística” emitida no Telejornal da RTP-Açores do passado dia 21 de Julho trouxe-me à memória o aviso e deixou-me triste pela pobreza do trabalho em si.
Tinha acabado de jantar, sentei-me a ver o que restava do noticiário, e a coisa começava assim: “Quase se diria estarmos na Ilha Terceira. Milhares de pessoas acorreram ao Porto dos Carneiros para uma tourada à corda integrada no Dia do Mundo Rural da quarta Festa da Juventude, uma iniciativa da Câmara Municipal da vila da costa sul da Ilha de São Miguel”. A tourada aconteceu, como se percebe, na Lagoa, e as imagens mostram, de facto, que estava lá muita gente. No entanto, em tempo de pré-campanha eleitoral, convinha mostrar as figuras do partido que o jornalista serviu durante tantos anos, e lá aparecem eles na imagem, com o seguinte texto a acompanhar: “No entretanto, o mordomo da festa, o mesmo é dizer o Presidente da Câmara da Lagoa, João Ponte, recebia formação adequada à ocasião por parte do experiente Director Regional do Desenvolvimento Agrário, o terceirense Joaquim Pires.” Que não é terceirense coisa nenhuma, só que talvez haja interesse em dar a entender que sim. Mas vejamos o que veio a seguir: “Para além de alguma correria, o Telejornal não conseguiu testemunhar qualquer outro feito digno de registo na lide do autarca. Ficou a intenção, e a certeza de que as touradas à corda estão a ganhar adeptos aos milhares na ilha de São Miguel.”
É curioso como o próprio jornalista reconhece que não houve nada “digno de registo” na aparição do autarca, não é? O pior veio depois, e quando ouvimos o resto da reportagem ficamos sem perceber se o jornalismo já deixou de ser informação e passou a ser opinião, duas coisas completamente diferentes. O que vai ler é a transcrição exacta do que foi dito: “Havendo vozes a queixar-se de que a capital da cultura já não é Angra do Heroísmo, e que os micaelenses já gostam mais e têm mais festas do que os terceirenses, resta ver quanto tempo mais será preciso ainda para a ilha do Arcanjo ganhar a dianteira nas tradições taurinas. Que vai ser difícil, ninguém tem dúvidas, mas aos terceirenses fica o aviso: cautela e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Qualquer dia, quando quiserem organizar uma corrida, constatam que toiros, pastores e capinhas estão todos em São Miguel.”
Respire fundo. Os erro gramaticais, deixei-os ficar de propósito. Já está refeito? Então vamos lá.
O jornalista não pode assumir o papel de comentador quando está a ser jornalista, e muito menos utilizar o tom altamente irónico e provocador que se percebe no texto mas que foi perfeitamente claro na transmissão televisiva. Esta peça, mais que um insulto aos terceirenses, foi um mau exemplo de serviço público e mais uma acha para a fogueira das justificações para não vermos a RTP Açores. São poucos, muito poucos, os programas de produção regional que vale a pena ver, com o Bom Dia à cabeça. Pedro Moura pode não ter grande presença no ecrã e ter um sotaque micaelense carregado, mas ao menos é genuíno e mostra aos açorianos aquilo que é feito pelos açorianos. Se calhar, tentaram calar-lhe a boca por isso mesmo, mas o público exigiu – em boa hora – o seu regresso.
Mais do que reinventar o que já foi escrito, reproduzo aqui, com a devida vénia, o pensamento de Miguel de Sousa Azevedo, expresso no seu blog Porto das Pipas (www.portodaspipas.blogs.sapo.pt): Quero crer que o sr. Jornalista, e antigo assessor do presidente do Governo Regional, não mediu a dimensão do texto com que deu voz à reportagem da recente tourada à corda do porto da Lagoa, em São Miguel.
Não tem a ver com bairrismos nem outras tontices doentias, simplesmente com irrealidade...nua e crua. E o jornalismo não deve ser folhetim de propaganda política, mas antes um veículo informativo. Opinativa ou não, esta reportagem foi irreal...
Meu caro amigo, ela foi bem real, para mal dos nossos pecados, e reflecte bem o que se tem passado ao longo dos anos, com São Miguel a levar tudo e a deixar as migalhas para os outros. Ficaram com as Portas do Mar, e deixaram os outros às portas do inferno, com gares de passageiros que não o são, com um cais de ferries onde os ferries não conseguem atracar, com hospitais, escolas e estradas penduradas por toda a parte, e por aí fora. São exemplos de todas as ilhas, não só da Terceira, mas que temos razão para nos sentirmos incomodados, isso temos. Que Angra há muito deixou de ser capital da cultura é uma realidade, não é preciso que a esfreguem descaradamente no nosso nariz pois todos temos olhos para ver o que se passa. Agora querem que os toiros vão para São Miguel…
Levem os políticos, levem os clubes de futebol, levem os tais que estão no título, levem a Via Rápida para adiantar a ligação ao Nordeste, levem o que resta da universidade, levem a diocese e o bispo, mas deixem ficar a Sé e os toiros, por favor! A Sé para nós rezarmos a pedir protecção contra a inveja e o mau-olhado, e os toiros para quando quiserem vir cá conquistar a Terceira nós podermos reeditar a Batalha da Salga… Aí vão levar com eles, ai vão, vão!

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