segunda-feira, 16 de maio de 2016

94 - A cadeira ficou vazia

O meu pai morreu. Deixei-lhe esta homenagem. Não consigo escrever mais nada.

Pai

Não sou de palavras ditas
ao sabor de conveniências
ou momentos mais ou menos
lembrados. Não sou de escritas
de filosofias ou ciências
matemáticas, senos e co-senos
que tantas mentes deixam aflitas

Não sou de usar palavras vãs
quando o assunto somos nós
e os nossos sentimentos.
Prefiro pensar nos amanhãs
recordando os meus avós
e guardando esses bons momentos

Não sou de nada disso.
Não sou muito destas coisinhas.
Não sou, e isso é normal.
Sou de falar quase por feitiço,
Sou de um beijo nas entrelinhas
Sou teu filho e ponto final


O meu pai morreu.
Não há outra forma de o dizer; dói muito, dói ainda mais escrevê-lo e é ainda pior senti-lo, mas, à medida que os dias passam e as ideias vão assentando, ganha forma a ideia de que foi o melhor que lhe podia ter acontecido. Ao mesmo tempo, leio o que acabo de escrever e sei que parece horrível. Não quero que seja verdade, quero chegar a casa e encontrá-lo sentado a ver futebol na televisão, quero poder perguntar-lhe o que acha dos acontecimentos políticos do dia, quero que ele me peça para lhe comprar os jornais quando sair do trabalho.
Mas é verdade.
Agora, chego a casa e está a Júlia no seu lugar, a lembrar-nos que a vida continua. A minha sobrinha, que tem quatro meses, não teve a sorte de conhecer verdadeiramente o avô. A minha filha, que tem quatro anos, provavelmente vai guardar uma ou duas memórias difusas mas a maior parte dos momentos que viveram juntos vai desaparecer nas voltas do relógio. Ficam as fotografias, o que já não é pouco, e ficamos nós para a fazer recordar o que for possível. Ela sabe que já não o volta a ver, mas não ficou triste, não é ainda capaz de processar este tipo de informação, e ainda bem. Ontem à noite, ao sair do carro, viu as estrelas a brilhar e perguntou qual delas era o avô. Eu disse-lhe que era a mais brilhante, ela apontou uma e sorriu.
Eu gostava de ser como a minha filha e mandar beijinhos para céu a sorrir. No entanto, vemo-la fazer isso e só a custo dominamos as lágrimas. Eu gostava de ser capaz de mandar beijos para o céu, palavra de honra, mas só consigo pensar em tudo o que foi acontecendo, no lento definhar de alguém que era indestrutível, nas vezes em que me fui apercebendo do fim iminente mas preferi sempre pensar que ainda poderia haver algo mais a fazer. E não havia.
Sei – tenho a certeza – que os próximos meses trariam mais dores, mais visitas ao hospital, mais perda de autonomia, mais perda de qualidade de vida. Sei isso tudo e já me ouvi dizer várias vezes que, apesar de tudo, acontecer o que aconteceu da forma como aconteceu foi o melhor que podia ter acontecido. A frase é confusa, mas verdadeira.
Deverei, pois, agradecer a Alguém pela misericórdia que teve? Provavelmente, sim. Afinal, não é para todos cumprir na morte o que se desejou em vida. Não quero ficar a chatear ninguém, dizia ele. E nunca chateou. Se for para morrer, que seja sem dar por isso, dizia ele. E não deu. Foi tão rápido como acabar uma frase e deixar pender a cabeça para o lado enquanto discutia política com dois companheiros. Foi uma morte linda, dizem-me. Como se tal coisa existisse…
A cadeira ficou vazia, e desta vez não é só por uns dias. Em casa, ficará sempre o lugar dele, e para nós ficará a lembrança das centenas de pessoas que nos acompanharam nestes dias. Fora de casa, já não era o Presidente, já não era o Chefe, já não era o colega de trabalho, mas continuava a ter amigos em todo o lado. Quando era criança, detestava ir à cidade com ele, pois estávamos sempre a parar para falar com alguém, chegávamos sempre atrasados. Agora, à beira dos quarenta, posso dizer que tenho um orgulho imenso em ser filho do Jorge da Terra-Chã. O Jorge que foi presidente da Junta, presidente da Casa do Povo, presidente da Associação de Futebol, presidente da Mesa Administrativa do Império, Furriel na tropa, dirigente do Angrense e destacado militante do PSD.
Não. O meu pai não merecia ter a doença a roê-lo até ao fim. Foi-se embora antes disso, “à Jorge Silva”, sem dizer nada a ninguém, que era para não chatear. Fez bem. E fez-nos muito bem enquanto cá esteve.
Pai, a gente não te esquece e não vai deixar que a Maria te esqueça. Quanto à Júlia, há de saber quem foi o avô. Aliás, não temos a menor dúvida de que, daqui a uns anos, hão de dizer a alguém que são tuas netas e ver portas a abrir por causa disso. De resto, não te preocupes, que a gente toma conta da mãe.
Obrigado, Pai.

E um beijo.

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