A praxe universitária é alvo de polémicas anuais. Desta vez, um grupinho de inconscientes foi passear trajado à beira-mar e dizem que andaram a experimentar umas praxes novas. Só um deles escapou ao afogamento...
No verão de 1994, já lá
vão quase vinte anos, acabei o liceu, decidi ir para a universidade e a escolha
foi ficar o mais perto possível de casa, por isso a viagem parou em São Miguel,
já que na Terceira não havia um curso para mim. O Joel ainda me tentou
convencer a ir para Lisboa, para Comunicação Social, garantindo que quando
regressasse seria “um rei”, mas não me convenceu.
Nesse ano, por força do
atraso na construção do novo edifício de Ciências Humanas, as aulas começaram
mais tarde e o verão da despedida acabou por ser bem maior que o habitual e foi
vivido com uma intensidade nunca repetida. Sanjoaninas, talvez festas da Praia
(ainda não se faziam todos os anos) Lajes, Vila Nova, Agualva, São Carlos, o
rali, participei em tudo como se não houvesse mais no ano seguinte… até que
chegou o dia. Lá fui, numa manhã fria de novembro, à boleia do Orlando, que fez
o favor de nos levar, a mim e ao meu pai, ao aeroporto. Era domingo, dia 13.
À nossa espera estava o
Liberal – era assim que o meu pai o chamava – para nos levar ao quarto alugado
que me iria receber os estudos ao longo de cinco anos e para nos mostrar a
cidade. Na segunda-feira, fomos conhecer a universidade, tratar de papéis,
comprar senhas de refeição, saber o horário, perceber o caminho das pedras, e
por aí fora. Conheci logo a Ana, que estava a ver o mesmo horário que eu. Era
do Faial e hoje está na Terceira, por capricho do destino. Trocámos olhares e
sorrisos amedrontados. Almoçámos na cantina, eu, o meu pai e alguns
terceirenses desterrados que já estavam lá por sua conta. Acho que o meu pai
percebeu que já tinha feito o que precisava de fazer e decidiu antecipar o
regresso. Nessa noite, o Liberal foi levá-lo ao aeroporto, levou-me a jantar o
frango de churrasco mais picante da história universal e deixou-me em casa, com
a recomendação de lhe ligar se precisasse de alguma coisa e o pedido de que o
fosse visitar à loja de vez em quando. Nunca precisei de nada, mas visitei-o
muitas vezes.
Terça-feira, 15 de
novembro de 1994. Primeiro dia de aulas.
A malta da Terceira
juntou-se instintivamente. Uns já se conheciam do liceu, outros só de vista,
alguns nem isso, mas juntámo-nos todos ao almoço. Não havia tristeza, apenas
entusiasmo pelo que aí vinha. Ao grupo juntaram-se outros caloiros, também eles
em busca de entrosamento. Foi nesse dia que conheci, para a vida toda, o
Frederico e o Rui. E começaram as praxes. Caloiros de pé! Caloiros têm de comer
com a mão esquerda, para perceberem o que custa a vida! És canhoto? Come com a
direita! E as gargalhadas não se fizeram esperar.
Vieram os “distintivos”,
barretes brancos com a fita da cor do curso, para nos distinguir dos veteranos.
Cantámos em grupo, fizemos “pudim Danone” com as raparigas, percebemos para que
servia um curso de “línguas”, inventámos declarações de amor na hora, andámos à
procura dos nossos sapatos entre centenas de pares, atravessámos o lago com uma
vela na mão para sermos batizados, sentámos o rabo em água para sermos
julgados, fomos condenados a ser Justiça, a lavar o cabelo com champô de ovo e
farinha, a perceber como se enfia um balão num pepino… tudo isto enquanto
conhecíamos mais caloiros, mais veteranos, mais colegas. Quando acabou a praxe,
quase sem darmos por isso, conhecíamos meia universidade e a outra metade
conhecia-nos a nós.
E assim me tornei
dirigente da Associação Académica, locutor de rádio, jogador de futsal,
representante do curso, organizador de semanas académicas. E assim me tornei
praxador, vestindo com orgulho um traje que guardo com carinho.
É isto a praxe. Feliz de
quem a viveu e soube aproveitar.
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