sexta-feira, 6 de maio de 2016

73 - Querida ANA

Decididamente, eu, os aviões e os aeroportos não nos entendemos. Com quase 200 viagens feitas, continuo a ser surpreendido com coisas fantásticas.

Olá Ana. Nós não nos conhecemos, nunca fomos apresentados, apesar de eu já ter necessitado dos teus serviços muitas vezes e nem sempre ter sido bem atendido, mas deixa lá isso, que não interessa para nada. O passado ficou lá atrás, e interessa-me agora o futuro. Tu tens andado nas bocas do mundo nos últimos tempos, e nem sempre pelas melhores razões, não é?
Tu bem sabes que uma Ana nos tempos que correm não pode gastar ao desvario, tem de ter cuidado com as contas lá de casa, se não a troika aparece num canto escuro e lá se vai a tua pureza, minha querida… já tens levado muito nas orelhas, é certo, mas se não mostrares que já aprendeste a lição vais levar tau-tau, ai isso vais, minha menina. Lembras-te daquela festa que organizaste, em que gastaste uma fortuna quando podias ter ficado bem vista com meia dúzia de euros? Pois é, quando as coisas se descobrem tudo se complica.
Olha, Ana, eu estou a escrever-te porque há coisas na tua organização que me incomodam, coisas pequenas para uma mulher do teu tamanho e do teu preço, é certo, mas sinto que devo partilhá-las contigo, pode ser que as leias e talvez consigas dar um jeitinho aos pobres que de ti precisam. Então vamos lá. Há uns quinze dias atrás, sentei-me num avião pela centésima octogésima quarta vez (184ª, caso não saibas ler bem os numerais ordinais), depois de ter aberto um buraco de 370 euros na carteira, e fui passar o Natal com a minha segunda família.
Tive de parar em Lisboa antes de seguir até ao Porto, e lá fomos nós, casal com um bebé, para o autocarro. Estávamos mesmo ao pé do teu Terminal 2, onde iríamos embarcar dali a uma hora e picos, mas tivemos de ir até ao Terminal 1, andar umas largas dezenas de metros a pé e apanhar outro autocarro para voltar ao Terminal 2. Nós e talvez umas outras 40 pessoas que tinham viajado connosco e iam para o mesmo destino. Oh Ana! Então se nós estávamos mesmo ali ao pé do sítio que nos interessava, para que nos levaste a dar a volta ao bilhar grande? Até te digo: andámos mais a pé no Terminal 1 do que se tivéssemos ido do avião ao Terminal 2! Nem tudo é mau, no entanto, pois ao menos deixaram-nos entrar diretamente para a sala de embarque, e lá ficámos a descansar e a comer qualquer coisa. Podias era dizer aos senhores que mandam naquele restaurantezinho para baixar um bocado os preços, pois aquilo é um roubo! Dizem-me que no Terminal 1 é muito mais barato, por isso há quem aproveite a travessia obrigatória para recuperar o estômago da minhoquice que nos servem durante o voo… para a próxima já sei.
As malas chegaram direitinhas, tudo decorreu normalmente, esteve muito frio mas também muito sol no meu Natal, e os dias passaram a correr até ao regresso, que teve de ser feito por São Miguel, pois a minha ilha de terceira categoria só no verão tem ligações com o Porto. Antes de embarcar, já se sabe, tivemos de nos submeter ao exame das bagagens, mas tudo correu bem, até nos mandaram por um caminho mais rápido por causa da bebé, o que muito agradecemos. O pior foi quando chegámos a São Miguel, onde não há caminhos mais rápidos para ninguém. Oh Ana! Quer dizer: então uma pessoa chega à coriscolândia para apanhar outro avião dali a nada e tu mandas toda a gente para a rua, sem direito a passar diretamente à sala de embarque? Eu bem pedi à menina da SATA que estava nos perdidos e achados, mas ela só me dizia que não, que não era possível, e quando insisti é que ela me disse que a culpa não era da SATA, era tua, que não deixavas os passageiros passar logo de uma vez para a sala do lado. Ainda se não houvesse porta, Ana, mas ela está lá, bem grande, à vista de toda a gente…
Lá fomos nós porta fora, para andar mais uns metros e passar outra vez numa revista de bagagem, responder outra vez às mesmas perguntas, tirar casacos, telemóveis, carteiras, cintos, computador, pegar na menina ao colo, passar a cadeirinha no raio X, e ainda nos sujeitarmos a ser escolhidos para ser apalpados! Garanto-te, Ana, que se me dizem para abrir as pernas e os braços eu tinha armado lá uma escandaleira que tinha entrado para a história! Felizmente, não houve mais percalços, e chegámos a casa direitinhos. Muito cansados, mas direitinhos e com as malas todas, o que só por si já é muito bom.
Sabes, Ana, as pessoas andam fartas de coisas tolas, de políticos, de políticas, de crises, de cortes, e dispensavam bem este tipo de disparate. Quem anda de avião quer é conforto e coisas práticas, não compreende o porquê de certas decisões, até porque tu própria fazes uma coisa num lado e depois fazes o contrário no outro, até pareces esquizofrénica, com dupla personalidade, ou coisa que o valha.
Pronto, Ana, era isto que eu te queria dizer. Agora, em princípio, só volto a precisar de ti no verão, mas, se houver voos diretos de cá para o Porto, não vou ter de passar pelas mesmas aventuras. Mas toma juízo, que mais dia menos dia passo por lá outra vez, e vou querer ver se me percebeste bem. Bom ano, minha querida.

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