Esta Maria e esta Mafalda foram inventadas, mas existem. Existem à nossa esquerda, à nossa direita, à nossa frente. Têm a vida como madrasta e o destino como padrasto. Lutam contra os dois. Às vezes perdem, às vezes ganham. Estas linhas são dedicadas ao seu futuro, que se deseja bem passado.
Maria tem pais e sabe
quem eles são. É essa a maior tragédia da sua vida.
Nasceu, como quase todas
as crianças, do desejo dos pais, que já tinham um filho e queriam agora a
menina para “fazer o casalinho”, como dizem as tias velhinhas que, pela frente,
passam a vida a falar dos maraus que são as raparigas de hoje mas, por trás,
querem é ver bebés com fartura. Nos seus primeiros anos de vida nem se
apercebia, não tinha capacidade para isso, mas o casamento dos pais estava a
perder fulgor. Os desentendimentos sucediam-se ao ritmo dos episódios da
telenovela e o desfecho era previsível.
Um dia, Maria deixou de
viver com pai e mãe. Foi cada um para o seu lado sem crianças, que foram
entregues a gente simpática mas apenas cheia de amor profissional. Maria
demorou a perceber o que lhe tinha acontecido. Queria o pai, queria a mãe, mas
eles não a queriam. Foram muitas noites de sono lavado por lágrimas, foram
muitos dias à procura de um sentido onde ele não existia. Valeram-lhe as
companheiras mais velhas, já habituadas ao tempo, ao espaço e às
circunstâncias.
- Deixa lá, os meus pais
fizeram o mesmo e eu não morri.
- Olha, estou melhor aqui
do que em casa, e se calhar vai acontecer o mesmo contigo.
- O meu pai dava-me
tareias de cinto, aqui ninguém me bate.
- As senhoras são fixes,
desde que faças o que te mandam.
Assim cresceu Maria, e
assim ela própria se transformou numa das mais velhas, recebendo novas
inquilinas ao sabor dos abandonos. De vez em quando, o pai ou a mãe
lembravam-se da sua existência e iam buscá-la para passar uma tarde. A namorada
do pai não queria saber de canalha, o namorado da mãe não estava interessado
nos filhos que ela já tinha, e Maria era invariavelmente devolvida em lágrimas
ao armazém onde dormia.
A Maria vai à escola
porque tem de ser, não por gostar. Ou melhor: ela até gosta da escola, não
gosta é das aulas, e os professores sabem disso, mas no papel o que fica é
apenas mais um caso de abandono que se transformara em incapacidade de obtenção
de resultados minimamente satisfatórios. Fizeram-lhe planos de prevenção,
diagnósticos psicológicos, testes especiais. O diretor de turma, sem ter um pai
ou uma mãe com quer falar, tentava levá-la a bem, mas sem sucesso. Maria fechava-se
em copas, o seu mundo não era igual ao dos colegas, que tinham tudo e não
valorizavam nada.
Foi então que apareceu
Mafalda. Logo no primeiro dia se percebeu que não era uma professora igual às
outras, mas foi com o passar das aulas que Maria se sentiu, pela primeira vez,
à vontade para falar com uma professora. E Mafalda ficou surpreendida. A
história, de tão triste e injusta, comoveu-a e fê-la perceber que Maria
precisava, acima de tudo, de ter alguém com quem falar. A professora, desde o
início, percebeu que Maria não tinha tantas dificuldades como o diagnóstico
psicológico fazia crer. A explicação veio célere e triste. Ó professora, eu não
ia estar a falar da minha vida com uma pessoa que não conhecia de lado nenhum.
Nem sequer me esforcei para responder bem às perguntas do teste que me
fizeram...
Mafalda “adotou” Maria.
Era rara a aula em que não ficavam a conversar no intervalo, e isso fez com que
a raiva começasse a ser canalizada para o trabalho na escola. As fraquezas
foram-se fazendo forças e as notas começaram a subir, mas Maria guardava sempre
a esperança de que a voltassem a querer. De vez em quando, alguém dava um sinal
de que isso seria possível, para depois Maria cair novamente na realidade.
Um dia, Mafalda teve de
lhe dizer as palavras mais duras de sempre.
- Maria, esquece o teu
pai e a tua mãe. Cada vez que pensas neles, ficas triste. Já sabes que só podes
contar contigo. É triste, mas, quanto mais cedo fores capaz de encarar a
realidade, melhor para ti.
- Isso não é justo,
professora! Eu não fiz nada de mal, porque é que isto me aconteceu?
- A vida não é justa,
Maria. E a tua há de ser aquilo que tu fizeres com ela.
Nunca te esqueças disso...
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