quinta-feira, 26 de maio de 2016

95 - Os pais da Maria

Esta Maria e esta Mafalda foram inventadas, mas existem. Existem à nossa esquerda, à nossa direita, à nossa frente. Têm a vida como madrasta e o destino como padrasto. Lutam contra os dois. Às vezes perdem, às vezes ganham. Estas linhas são dedicadas ao seu futuro, que se deseja bem passado.

Maria tem pais e sabe quem eles são. É essa a maior tragédia da sua vida.
Nasceu, como quase todas as crianças, do desejo dos pais, que já tinham um filho e queriam agora a menina para “fazer o casalinho”, como dizem as tias velhinhas que, pela frente, passam a vida a falar dos maraus que são as raparigas de hoje mas, por trás, querem é ver bebés com fartura. Nos seus primeiros anos de vida nem se apercebia, não tinha capacidade para isso, mas o casamento dos pais estava a perder fulgor. Os desentendimentos sucediam-se ao ritmo dos episódios da telenovela e o desfecho era previsível.
Um dia, Maria deixou de viver com pai e mãe. Foi cada um para o seu lado sem crianças, que foram entregues a gente simpática mas apenas cheia de amor profissional. Maria demorou a perceber o que lhe tinha acontecido. Queria o pai, queria a mãe, mas eles não a queriam. Foram muitas noites de sono lavado por lágrimas, foram muitos dias à procura de um sentido onde ele não existia. Valeram-lhe as companheiras mais velhas, já habituadas ao tempo, ao espaço e às circunstâncias.
- Deixa lá, os meus pais fizeram o mesmo e eu não morri.
- Olha, estou melhor aqui do que em casa, e se calhar vai acontecer o mesmo contigo.
- O meu pai dava-me tareias de cinto, aqui ninguém me bate.
- As senhoras são fixes, desde que faças o que te mandam.
Assim cresceu Maria, e assim ela própria se transformou numa das mais velhas, recebendo novas inquilinas ao sabor dos abandonos. De vez em quando, o pai ou a mãe lembravam-se da sua existência e iam buscá-la para passar uma tarde. A namorada do pai não queria saber de canalha, o namorado da mãe não estava interessado nos filhos que ela já tinha, e Maria era invariavelmente devolvida em lágrimas ao armazém onde dormia.
A Maria vai à escola porque tem de ser, não por gostar. Ou melhor: ela até gosta da escola, não gosta é das aulas, e os professores sabem disso, mas no papel o que fica é apenas mais um caso de abandono que se transformara em incapacidade de obtenção de resultados minimamente satisfatórios. Fizeram-lhe planos de prevenção, diagnósticos psicológicos, testes especiais. O diretor de turma, sem ter um pai ou uma mãe com quer falar, tentava levá-la a bem, mas sem sucesso. Maria fechava-se em copas, o seu mundo não era igual ao dos colegas, que tinham tudo e não valorizavam nada.
Foi então que apareceu Mafalda. Logo no primeiro dia se percebeu que não era uma professora igual às outras, mas foi com o passar das aulas que Maria se sentiu, pela primeira vez, à vontade para falar com uma professora. E Mafalda ficou surpreendida. A história, de tão triste e injusta, comoveu-a e fê-la perceber que Maria precisava, acima de tudo, de ter alguém com quem falar. A professora, desde o início, percebeu que Maria não tinha tantas dificuldades como o diagnóstico psicológico fazia crer. A explicação veio célere e triste. Ó professora, eu não ia estar a falar da minha vida com uma pessoa que não conhecia de lado nenhum. Nem sequer me esforcei para responder bem às perguntas do teste que me fizeram...
Mafalda “adotou” Maria. Era rara a aula em que não ficavam a conversar no intervalo, e isso fez com que a raiva começasse a ser canalizada para o trabalho na escola. As fraquezas foram-se fazendo forças e as notas começaram a subir, mas Maria guardava sempre a esperança de que a voltassem a querer. De vez em quando, alguém dava um sinal de que isso seria possível, para depois Maria cair novamente na realidade.
Um dia, Mafalda teve de lhe dizer as palavras mais duras de sempre.
- Maria, esquece o teu pai e a tua mãe. Cada vez que pensas neles, ficas triste. Já sabes que só podes contar contigo. É triste, mas, quanto mais cedo fores capaz de encarar a realidade, melhor para ti.
- Isso não é justo, professora! Eu não fiz nada de mal, porque é que isto me aconteceu?
- A vida não é justa, Maria. E a tua há de ser aquilo que tu fizeres com ela. Nunca te esqueças disso...


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