Isto de ser professor não é fácil. Depois de se tirar o curso e fazer o estágio, agora decidiram que também é preciso fazer uma prova de acesso à carreira...
Hoje é dia de prova para
alguns professores contratados. É dia de nervos, de impotência, de prepotência…
e de alguma demência. Hoje é também, para mim, dia de vergonha, por ver colegas
meus apanhados nas malhas canalhas de uma lei socialista aplicada pelos
social-democratas. Sim, lei socialista. É bom não esquecer, só para
contextualizar, que esta lei foi assinada pelo punho cor-de-rosa do nosso
filósofo afrancesado, mas a coragem de a aplicar ficou para outros, pois a
ministra-que-foi-recompensada-com-um-cargo-na-FLAD já não aguentava mais
pancada política depois da burrice da avaliação dos professores.
Louvo a coragem? Sim.
Louvo a forma como se fizeram as coisas? Não.
Passo a explicar. Passo a
passo, sem saltos de coelho.
Tudo o que seja alteração
de regras a meio do jogo é, para mim, batota. Neste momento, não há um único
professor em Portugal que tenha sido formado através de um curso estruturado de
modo a terminar com uma prova de acesso à carreira. Não existe, mas devia
existir. Neste momento, todos aqueles que têm habilitação profissional para dar
aulas cumpriram normalmente a sua licenciatura (aqui não há Relvas nem canudos
postiços) e fizeram o estágio respetivo, sendo avaliados por critérios claros,
bem definidos, por orientadores acreditados para essa função pelas
universidades a que pertencem. Neste momento, todos os professores em Portugal
terminaram um curso que lhes confere, automaticamente, habilitação para dar
aulas, e é aqui que está um dos problemas. Mas já lá iremos. Primeiro, a tal
prova que ninguém aprova.
A minha opinião: se
houver um único professor que não seja capaz de resolver aquela prova-tipo que
foi apresentada, essa pessoa não merece dar aulas. Aquilo é tão fácil que não
me entra na cabeça haver um licenciado em ensino neste país que não se saia
bem. A questão dos erros de português levarem a ter zero na pergunta de
desenvolvimento parece-me muito bem, e haverá muito boa gente a trocar os pés
na escrita, o que não é aceitável, tenham lá paciência. Sobra o resto para se
safarem e terem positiva, mas do “puxão de orelhas” não se livram.
Então (já ouço o coro…)
se a prova é assim tão fácil, de que é que os professores se queixam?
Acima de tudo, queixam-se
da alteração de regras a meio do jogo, que parece destinada a eliminar das
listas uns quantos menos dados a exercícios de cadernos de passatempos, de modo
a diminuir os números do desemprego dos professores. Mas, se isso é assim,
porquê dispensar da prova quem já anda nisto há mais de cinco anos? Para dar um
rebuçado aos sindicatos, que não se apanham moscas com vinagre, e para dar a
entender que se está a perder a confiança nas universidades e na qualidade da
formação realizada de há uns anos para cá.
E agora, a revelação: eu
sou a favor de uma prova.
Se me disserem assim: a
partir do ano letivo 2019/2020 (o tempo para que os novos candidatos a
professores terminem o curso), quem quiser ser professor terá de realizar uma
prova de acesso à carreira, prova essa que será criada e aplicada pela Ordem
dos Professores, de acordo com a nova estrutura dos cursos de ensino a
ministrar pelas universidades portuguesas, eu aceito. Aceito, porque assim já
sabemos com o que contamos e sabemos que as coisas foram feitas a começar pelos
alicerces e não pelo telhado.
(Telefonema do governo)
Olhe, Sr. Jorge, o
problema é que os resultados dos alunos portugueses têm sido tão maus que nós
achamos que é preciso selecionar melhor os professores…
(Resposta do Sr. Jorge)
Tenham coragem de chamar
os bois pelos nomes! E que tal olharem para a forma como os alunos são educados
em casa? Não dá jeito dizer a muitos pais que não sabem educar os filhos, pois
não? Mesmo assim, se acham que o problema é os professores não prestarem, sabem
porque há maus professores? Porque na sua formação nunca entraram numa sala de
aulas para trabalhar com alunos até ao dia em que iniciaram o estágio. Nesse
dia, deram-lhes uma chave para a mão e disseram-lhes para ir dar aulas à turma
X. Na cabeça tinham muita teoria, mas nenhuma prática. Na prática, os alunos
foram cobaias. Há maus professores porque os seus orientadores viram que eles
não tinham jeito nenhum para a coisa mas não tiveram coragem de os chumbar
(dava muito trabalho, ainda ficavam mal vistos e era uma chatice estar agora a
cortar as pernas a uma pessoa que tinha estudado cinco anos para estar ali),
preferindo convidá-los a desistir. Eles, claro, não desistiram. Há maus
professores porque se desvalorizou a capacidade pedagógica do indivíduo e se
privilegiou o marranço científico. Há maus professores porque não aprenderam a
escrever sem erros. Há maus professores por todas as avaliações e experiências
que não tiveram na sua formação. Reformulem os cursos! Dignifiquem o papel do
professor! A continuar com esta palhaçada, daqui a dez anos querem professores
e eles não existem, pois ninguém está para aturar estas coisas!
(O Governo desligou…)
Há maus professores
porque sim, e sempre vai haver. Não há maus professores porque não fizeram uma
prova… ou porque foram aprovados numa.
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