A política. Tem tudo para ser nobre, mas é uma tristeza...
Gostava muito de ter outro título para colocar aqui, mas não o encontro.
Convém explicar que sou daqueles que faz o título e depois escreve, por isso as
duas palavras acima traduzem mais um estado de alma do que uma intenção do
texto, em plena noite de rescaldo eleitoral e num fim de semana de ressaca pelos
desvarios autárquicos em Angra.
Começando pela desgraça que nos invade a sala de visitas, está na hora de
quebrar silêncios e mostrar quem são e do que são feitos os cidadãos anónimos
mas pensantes desta terra, insultados que foram por quem tem a
responsabilidade de encabeçar o governo da cidade e fez de conta que queria
ouvir quando na realidade queria era disfarçar o facto de já ter decidido tudo
sem perguntar nada.
Enquanto cidadão do concelho, sinto-me insultado. Não fui à sessão, mas li o
que foi escrito, ouvi o que foi dito, e só consigo pensar que no mundo cor-derosa
devem achar que os habitantes são parvos e iam ficar deslumbrados com
um projecto muito bonito a três dimensões. Enganaram-se. Mais do que
desrespeitar a inteligência das pessoas, desrespeitou-se Angra, e isso é
imperdoável. Não se pode querer mudar certas coisas só por querer modernizá-
las. Angra pode ser moderna sem ser descaracterizada, pode ser apresentada
com um saudável ar de mistura entre o passado e o presente, mas também pode e
deve ser preservada como a máquina do tempo que é, e isso não se consegue
com bancos de betão que vão servir de armazém de lixo nem com um contentor
disfarçado de quiosque, que ainda por cima vai servir para afixar publicidade.
Mas para que raio queremos nós publicidade na Praça Velha?
Existe o frenesim de querer mostrar serviço, já se vê, e escolhe-se o caminho
mais fácil, fazendo coisas que mexam com as vistas, mas não se mexe no que é
estrutural. Não se corrigem desníveis nas calçadas, não se reparam passeios, não
se promove a recuperação das feridas abertas pelo sismo (ainda há tantas…),
não se tem a coragem de promover alterações na circulação rodoviária para
evitar os estrangulamentos, não se encontra solução para os muitos baldes do
lixo a céu aberto, que tanto nos ferem as vistas, e, pior que tudo, não se
respeitam as pessoas. Quem mora no centro histórico não pode pintar uma
varanda sem ter um projecto de engenharia assinado, mas vê nascer uma
biblioteca que mais parece uma unha encravada, vê serem instalados caixotes
que afinal são bancos, vê nascer do chão cigarreiras que parecem canos de
esgoto, vê serem aparafusados letreiros em inox que nem se conseguem ler, de
tão liberais que são, e vê a Presidente da Câmara apresentar uma consulta
pública quando já tem a mobília comprada. É mau, mau demais para ser
verdade, mas é o ridículo a que chegámos. Se querem mudar alguma coisa,
mudem o caixote da Caixa Geral de Depósitos, aquela verruga nojenta que
alguém um dia teve a cegueira de autorizar.
Mas a noite é de Eleições Presidenciais, por isso eis que me vou a elas.
Cavaco ganhou. Já se sabia que isso ia acontecer. Nem mesmo o mais alegre de
entre os nobres opositores conseguiria ser defensor de outro desfecho, tal era a
evidência. Este país necessita urgentemente de ter aos comandos alguém que
fale verdade, e esse alguém só pode ser Cavaco Silva, mas não o que foi
presidente até agora. Terá de ser um Cavaco novo, mais corajoso, mais claro e
mais hábil nas suas intervenções. Não basta falar de modo a que as elites
entendam, é necessário que o povo que o suporta seja também capaz de o
entender. Chega de recados, é altura de puxar da palmatória.
No meio da mediocridade que reinou na campanha, Cavaco foi o menos mau,
mesmo não tendo escapado incólume aos ataques dos adversários, de entre os
quais apenas um, Fernando Nobre, queria mesmo ser Presidente da República.
Os outros apenas queriam que Cavaco não ganhasse, e isso fez uma grande
diferença, pois o povo não é tão parvo como alguns querem fazer crer. O “novo”
Presidente terá pela frente uma árdua tarefa, tornada ainda mais difícil pela
necessidade de estabilidade política que o país tem, de modo a poder sobreviver
à crise económica. Com tanto disparate e tanta contradição (Sócrates já nem
pelos ministros é amado…), estou em crer que mais valia deitar fora este
governo e fazer um novo, mas isso seria atrair atenções negativas para cima de
nós, pelo que mais vale estar quieto… pelo menos por enquanto.
Cavaco terá de ser o presidente de todos os portugueses, incluindo Defensor
Moura, tremendamente deselegante nas suas declarações de domingo à noite, e
José Manuel Coelho, o madeirense que fez o papel de Tiririca à portuguesa e
conseguiu uma votação histórica. Como político, é boçal e chega a ser ridículo,
mas combina bem com o país que vamos tendo… de que me serve ter um cartão
de cidadão do mais moderno que há, que até tem um chip com a minha vida toda
lá dentro, se no dia das eleições não há um aparelhinho capaz de o ler e dizer o
meu número de eleitor? À conta disso, muitos portugueses foram impedidos de
votar, e depois os políticos queixam-se da abstenção.
Por uma vez, experimentem começar a fazer a casa pelos alicerces e deixem o
telhado para o fim. Pode ser que se surpreendam com o resultado.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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