sexta-feira, 6 de maio de 2016

67 - Portugal ridículo

A política. Tem tudo para ser nobre, mas é uma tristeza...

Gostava muito de ter outro título para colocar aqui, mas não o encontro. Convém explicar que sou daqueles que faz o título e depois escreve, por isso as duas palavras acima traduzem mais um estado de alma do que uma intenção do texto, em plena noite de rescaldo eleitoral e num fim de semana de ressaca pelos desvarios autárquicos em Angra.
Começando pela desgraça que nos invade a sala de visitas, está na hora de quebrar silêncios e mostrar quem são e do que são feitos os cidadãos anónimos mas pensantes desta terra, insultados que foram por quem tem a responsabilidade de encabeçar o governo da cidade e fez de conta que queria ouvir quando na realidade queria era disfarçar o facto de já ter decidido tudo sem perguntar nada. Enquanto cidadão do concelho, sinto-me insultado. Não fui à sessão, mas li o que foi escrito, ouvi o que foi dito, e só consigo pensar que no mundo cor-derosa devem achar que os habitantes são parvos e iam ficar deslumbrados com um projecto muito bonito a três dimensões. Enganaram-se. Mais do que desrespeitar a inteligência das pessoas, desrespeitou-se Angra, e isso é imperdoável. Não se pode querer mudar certas coisas só por querer modernizá- las. Angra pode ser moderna sem ser descaracterizada, pode ser apresentada com um saudável ar de mistura entre o passado e o presente, mas também pode e deve ser preservada como a máquina do tempo que é, e isso não se consegue com bancos de betão que vão servir de armazém de lixo nem com um contentor disfarçado de quiosque, que ainda por cima vai servir para afixar publicidade. Mas para que raio queremos nós publicidade na Praça Velha?
Existe o frenesim de querer mostrar serviço, já se vê, e escolhe-se o caminho mais fácil, fazendo coisas que mexam com as vistas, mas não se mexe no que é estrutural. Não se corrigem desníveis nas calçadas, não se reparam passeios, não se promove a recuperação das feridas abertas pelo sismo (ainda há tantas…), não se tem a coragem de promover alterações na circulação rodoviária para evitar os estrangulamentos, não se encontra solução para os muitos baldes do lixo a céu aberto, que tanto nos ferem as vistas, e, pior que tudo, não se respeitam as pessoas. Quem mora no centro histórico não pode pintar uma varanda sem ter um projecto de engenharia assinado, mas vê nascer uma biblioteca que mais parece uma unha encravada, vê serem instalados caixotes que afinal são bancos, vê nascer do chão cigarreiras que parecem canos de esgoto, vê serem aparafusados letreiros em inox que nem se conseguem ler, de tão liberais que são, e vê a Presidente da Câmara apresentar uma consulta pública quando já tem a mobília comprada. É mau, mau demais para ser verdade, mas é o ridículo a que chegámos. Se querem mudar alguma coisa, mudem o caixote da Caixa Geral de Depósitos, aquela verruga nojenta que alguém um dia teve a cegueira de autorizar.
Mas a noite é de Eleições Presidenciais, por isso eis que me vou a elas. Cavaco ganhou. Já se sabia que isso ia acontecer. Nem mesmo o mais alegre de entre os nobres opositores conseguiria ser defensor de outro desfecho, tal era a evidência. Este país necessita urgentemente de ter aos comandos alguém que fale verdade, e esse alguém só pode ser Cavaco Silva, mas não o que foi presidente até agora. Terá de ser um Cavaco novo, mais corajoso, mais claro e mais hábil nas suas intervenções. Não basta falar de modo a que as elites entendam, é necessário que o povo que o suporta seja também capaz de o entender. Chega de recados, é altura de puxar da palmatória.
No meio da mediocridade que reinou na campanha, Cavaco foi o menos mau, mesmo não tendo escapado incólume aos ataques dos adversários, de entre os quais apenas um, Fernando Nobre, queria mesmo ser Presidente da República. Os outros apenas queriam que Cavaco não ganhasse, e isso fez uma grande diferença, pois o povo não é tão parvo como alguns querem fazer crer. O “novo” Presidente terá pela frente uma árdua tarefa, tornada ainda mais difícil pela necessidade de estabilidade política que o país tem, de modo a poder sobreviver à crise económica. Com tanto disparate e tanta contradição (Sócrates já nem pelos ministros é amado…), estou em crer que mais valia deitar fora este governo e fazer um novo, mas isso seria atrair atenções negativas para cima de nós, pelo que mais vale estar quieto… pelo menos por enquanto.
Cavaco terá de ser o presidente de todos os portugueses, incluindo Defensor Moura, tremendamente deselegante nas suas declarações de domingo à noite, e José Manuel Coelho, o madeirense que fez o papel de Tiririca à portuguesa e conseguiu uma votação histórica. Como político, é boçal e chega a ser ridículo, mas combina bem com o país que vamos tendo… de que me serve ter um cartão de cidadão do mais moderno que há, que até tem um chip com a minha vida toda lá dentro, se no dia das eleições não há um aparelhinho capaz de o ler e dizer o meu número de eleitor? À conta disso, muitos portugueses foram impedidos de votar, e depois os políticos queixam-se da abstenção.
Por uma vez, experimentem começar a fazer a casa pelos alicerces e deixem o telhado para o fim. Pode ser que se surpreendam com o resultado.

Sem comentários: