segunda-feira, 16 de maio de 2016

82 - O campeão? É açoriano!


“Luís Pimentel foi quarto, mas mostrou-se mais rápido do que em 2004, fruto da evolução do Subaru, só que frente aos Mitsubishi não pode aspirar a muito mais, tendo passado o tempo entretido com Ricardo Moura, que felizmente conseguiu apoio para esta época. O carro é velho, desatualizado e está quase de série, mas Moura mostrou que sabe de facto para que servem três pedais, um volante e duas alavancas. O discurso, esse, não se alterou: calmo, ponderado e, acima de tudo, educado.”

in Reportagem Rali Sical, Rotações Magazine, abril de 2005

Acompanhei a carreira de Ricardo Moura nos ralis praticamente desde o início, encontrando facilmente no meu arquivo várias referências elogiosas aos desempenhos do piloto micaelense. Escolhi esta que acompanha o texto por me parecer aquela que melhor sintetiza o tricampeão nacional de ralis, feito alcançado no passado sábado, no Rali Casinos do Algarve.
Apetece-me escrever hoje qualquer coisa sobre o Ricardo. Há uns anos atrás (em 2002…), dediquei uma crónica à vitória de Horácio Franco no campeonato nacional de Produção, mas o decréscimo da minha escrita levou a que nunca tivesse feito a mesma justiça ao homem que levou os Açores ao topo dos ralis nacionais. Um homem que, mesmo depois de deixar de ser “jovem”, continuou a ser tratado como tal por alguma imprensa, graças ao seu ar de menino tímido que pede desculpa por ser tão bom a brincar com os carrinhos.
Vimo-lo começar com um Toyota Starlet, ainda meio a brincar, vimo-lo dar passos certos rumo a carros mais competitivos, passando por Seat Ibiza, Citroen Saxo, Daewoo Lanos, Mitsubishi com material de segunda… até, finalmente, ter Mitsubishi de primeira e um Skoda (quase) de topo. Foram muitos anos, foram muitos ralis, foram muitas aprendizagens que culminaram naquilo que é hoje: um piloto grande demais para os Açores, capaz de levar de vencida toda a concorrência nacional e até fazer umas cócegas a alguns nomes do panorama internacional.
Pelo meio, ficam disputas mais ou menos “acesas” com Fernando Peres nos Açores e ficam lutas dentro e fora da estrada com Bernardo Sousa, mas em todas imperou (tanto quanto nos foi dado ver) a tal calma, ponderação e educação de que falava em 2005. De facto, a tranquilidade é a imagem de marca do piloto, que, mesmo nos momentos de maior tensão, prima por se apresentar diante dos microfones com um discurso correto e apaziguador. Aqui e acolá terá tropeçado nas palavras? Sim, mas é a exceção que confirma a regra, como se diz em bom Português. Confesso-me, pois, um admirador de Moura. Não me custa reconhecê-lo nem isso me tolda a imparcialidade jornalística nas três vezes por ano em que me sento aos comandos de um microfone.
Com meia dúzia de títulos açorianos no bolso e um saboroso “tri” nacional, o que resta a Ricardo Moura? Emigrar? Fala-se muito nisso, na fuga para o estrangeiro de gente com qualificações, mas este não será bem o caso. Pelo que conhecemos do homem e dos que o rodeiam, não será mais um título nacional que o fará embandeirar em arco. Mais ainda, os portugueses dos ralis têm bem presente o sucedido com Armindo Araújo, que desapareceu do mapa depois de uma aventura mal sucedida no Mundial de ralis.
A internacionalização será o passo lógico a dar na carreira, mas terá de ser bem pensado e melhor medido. Moura tem pernas longas, mas este é daqueles casos em que mais vale dar passos curtos… para que não falte o fôlego para chegar mais longe. Pôr-se em bicos de pés não é o seu estilo, e ainda bem. Há que mostrar trabalho, consistência e andamento, ingredientes que o nosso campeão já mostrou ter de sobra para consumo interno. Agora, parafraseando, o injustiçado Álvaro, há que investir nas exportações, mas com cuidado.

Parabéns, Ricardo!

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