“Luís Pimentel foi
quarto, mas mostrou-se mais rápido do que em 2004, fruto da evolução do Subaru,
só que frente aos Mitsubishi não pode aspirar a muito mais, tendo passado o
tempo entretido com Ricardo Moura, que felizmente conseguiu apoio para esta
época. O carro é velho, desatualizado e está quase de série, mas Moura mostrou
que sabe de facto para que servem três pedais, um volante e duas alavancas. O
discurso, esse, não se alterou: calmo, ponderado e, acima de tudo, educado.”
in Reportagem Rali Sical, Rotações Magazine, abril de 2005
Acompanhei a carreira de Ricardo Moura nos ralis praticamente
desde o início, encontrando facilmente no meu arquivo várias referências
elogiosas aos desempenhos do piloto micaelense. Escolhi esta que acompanha o
texto por me parecer aquela que melhor sintetiza o tricampeão nacional de
ralis, feito alcançado no passado sábado, no Rali Casinos do Algarve.
Apetece-me escrever hoje qualquer coisa sobre o Ricardo. Há
uns anos atrás (em 2002…), dediquei uma crónica à vitória de Horácio Franco no
campeonato nacional de Produção, mas o decréscimo da minha escrita levou a que
nunca tivesse feito a mesma justiça ao homem que levou os Açores ao topo dos
ralis nacionais. Um homem que, mesmo depois de deixar de ser “jovem”, continuou
a ser tratado como tal por alguma imprensa, graças ao seu ar de menino tímido
que pede desculpa por ser tão bom a brincar com os carrinhos.
Vimo-lo começar com um Toyota Starlet, ainda meio a brincar,
vimo-lo dar passos certos rumo a carros mais competitivos, passando por Seat
Ibiza, Citroen Saxo, Daewoo Lanos, Mitsubishi com material de segunda… até,
finalmente, ter Mitsubishi de primeira e um Skoda (quase) de topo. Foram muitos
anos, foram muitos ralis, foram muitas aprendizagens que culminaram naquilo que
é hoje: um piloto grande demais para os Açores, capaz de levar de vencida toda
a concorrência nacional e até fazer umas cócegas a alguns nomes do panorama
internacional.
Pelo meio, ficam disputas mais ou menos “acesas” com
Fernando Peres nos Açores e ficam lutas dentro e fora da estrada com Bernardo
Sousa, mas em todas imperou (tanto quanto nos foi dado ver) a tal calma,
ponderação e educação de que falava em 2005. De facto, a tranquilidade é a
imagem de marca do piloto, que, mesmo nos momentos de maior tensão, prima por
se apresentar diante dos microfones com um discurso correto e apaziguador. Aqui
e acolá terá tropeçado nas palavras? Sim, mas é a exceção que confirma a regra,
como se diz em bom Português. Confesso-me, pois, um admirador de Moura. Não me
custa reconhecê-lo nem isso me tolda a imparcialidade jornalística nas três
vezes por ano em que me sento aos comandos de um microfone.
Com meia dúzia de títulos açorianos no bolso e um saboroso
“tri” nacional, o que resta a Ricardo Moura? Emigrar? Fala-se muito nisso, na
fuga para o estrangeiro de gente com qualificações, mas este não será bem o
caso. Pelo que conhecemos do homem e dos que o rodeiam, não será mais um título
nacional que o fará embandeirar em arco. Mais ainda, os portugueses dos ralis
têm bem presente o sucedido com Armindo Araújo, que desapareceu do mapa depois
de uma aventura mal sucedida no Mundial de ralis.
A internacionalização será o passo lógico a dar na carreira,
mas terá de ser bem pensado e melhor medido. Moura tem pernas longas, mas este
é daqueles casos em que mais vale dar passos curtos… para que não falte o
fôlego para chegar mais longe. Pôr-se em bicos de pés não é o seu estilo, e
ainda bem. Há que mostrar trabalho, consistência e andamento, ingredientes que
o nosso campeão já mostrou ter de sobra para consumo interno. Agora,
parafraseando, o injustiçado Álvaro, há que investir nas exportações, mas com
cuidado.
Parabéns, Ricardo!
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