segunda-feira, 16 de maio de 2016

86 - Os académicos

Para quem não sabe, as pessoas que estamos habituados a ver na televisão não são melhores que nós. Simplesmente, conseguiram de alguma forma destacar-se dos restante, mas isso não faz deles mais inteligentes, por muitos doutoramentos que tenham.

Há uma dúzia de anos atrás, numa universidade que permanecerá anónima, um jovem professor convidado tomou o seu lugar na primeira reunião do seu departamento. À sua volta estavam caras e nomes que ele só conhecia dos jornais e de “ouvir falar”, tendo decidido que a melhor tática para este primeiro embate seria “primeiro ouvir e depois – talvez – falar”.
Ao fim de uns minutos, estava a sentir-se incomodado. Aquelas pessoas, que ele se habituara a ver como uma espécie de sumidades, eram afinal normais, tão normais que alguns deles chegavam a parecer anormais. A reunião arrastava-se penosamente, parecendo-lhe que se discutia tudo menos o que estava na ordem de trabalhos, quando, do nada, uma senhora de renome atirou para cima da mesa uma proposta para que se mudasse o nome daquele departamento. No seu entender, “professores” não era uma designação suficientemente digna, devendo substituir-se essa palavra pelo sinónimo “docentes”. Na sua opinião, portanto, aquela valência da universidade deveria passar a chamar-se “Centro Integrado de Formação de Docentes”.
O nosso jovem professor torceu-se na cadeira.
De imediato se gerou uma discussão filosófica sobre os méritos da proposta, que se arrastou por muito mais tempo que o desejável. O nosso jovem professor (seria melhor dizer “docente”?) pediu então a palavra, perante algum espanto geral, pois ele era apenas um novato, um convidado que nem sequer pertencia à “casa”. A sua intervenção foi simples: “Meus senhores e minhas senhoras, vão desculpar-me pelo atrevimento, em particular a senhora doutora A., mas queria apenas chamar-vos a atenção para o facto de este departamento ser conhecido como CIFOP, dadas as suas iniciais, e a mudança proposta vai fazer com que a última letra seja outra, dando azo a um trocadilho que poderá ser deveras embaraçoso”.
Os “da casa” demoraram dois segundos a processar a informação. Findo esse tempo, o doutor P. começou a rir descontroladamente, no que foi acompanhado por boa parte dos restantes, deixando a autora de tão descabida proposta mergulhada no mar de sangue que lhe afluiu à cara quando percebeu a trapalhada em que se tinha metido. O nosso jovem professor recebeu uma amistosa palmada nas costas e uns quantos olhares de aprovação por ter conseguido o feito de compreender uma coisa tão óbvia antes das sumidades todas.
Lembrei-me desta historieta depois de ler o “folhetim” de Luiz Fagundes Duarte (doravante aqui referido pelas iniciais LFD) no Diário Insular de domingo, 8 de junho, dedicado implícita mas claramente a Félix Rodrigues (doravante identificado pelas iniciais FR). Lembrei-me da historieta e tive pena, pois tinha a figura em elevada conta, mas a falta de educação de tal escrito contrasta flagrantemente com o alto cargo exercido nos Açores por LFD. Não que eu seja particularmente apreciador das deambulações de FR por caminhos diferentes daqueles que a sua habilitação académica recomenda, entenda-se. Aliás, nem sequer consigo estar de acordo com ele em termos políticos, mas entendo que há limites para tudo e, neste caso, foram largamente ultrapassados. LFD não é Almada Negreiros nem FR é Júlio Dantas e nós não estamos no meio de uma qualquer polémica literária do início do século XX. Nem sequer estou interessado em discutir quem nasceu primeiro, o português ou a língua portuguesa.
Os académicos, não poucas vezes, são muito bons numa determinada área, à qual dedicaram anos de vida, na qual se especializaram e pela qual são conhecidos e, quiçá, reconhecidos, mas quando saem dessa área de conforto, tal como o sapateiro que um dia quis ir além da chinela, dão-se mal. Os académicos, já se sabe, passam de si uma imagem de superioridade que nos leva a colocá-los numa espécie de pedestal virtual, até ao dia em que percebemos que, afinal, não é bem assim, e também são pessoas normais, que se enganam, têm devaneios, deslizes e lapsos dos quais, por vezes, se arrependem.
No caso de um, talvez se venha a arrepender de ter trocado os estudos de literatura pelo encerramento de escolas (contra tudo o que vem na própria literatura); no caso de outro, talvez se venha a arrepender de ter tentado transformar um calhau num templo…

De uma forma ou de outra, caros LFD, FR e quejandos, deixem as tricas para a Assembleia Regional e dediquem-se mas é ao trabalho, que é para isso que vos pagamos.

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