Para quem não sabe, as pessoas que estamos habituados a ver na televisão não são melhores que nós. Simplesmente, conseguiram de alguma forma destacar-se dos restante, mas isso não faz deles mais inteligentes, por muitos doutoramentos que tenham.
Há uma dúzia de anos
atrás, numa universidade que permanecerá anónima, um jovem professor convidado
tomou o seu lugar na primeira reunião do seu departamento. À sua volta estavam
caras e nomes que ele só conhecia dos jornais e de “ouvir falar”, tendo decidido
que a melhor tática para este primeiro embate seria “primeiro ouvir e depois –
talvez – falar”.
Ao fim de uns minutos,
estava a sentir-se incomodado. Aquelas pessoas, que ele se habituara a ver como
uma espécie de sumidades, eram afinal normais, tão normais que alguns deles
chegavam a parecer anormais. A reunião arrastava-se penosamente, parecendo-lhe
que se discutia tudo menos o que estava na ordem de trabalhos, quando, do nada,
uma senhora de renome atirou para cima da mesa uma proposta para que se mudasse
o nome daquele departamento. No seu entender, “professores” não era uma
designação suficientemente digna, devendo substituir-se essa palavra pelo
sinónimo “docentes”. Na sua opinião, portanto, aquela valência da universidade
deveria passar a chamar-se “Centro Integrado de Formação de Docentes”.
O nosso jovem professor
torceu-se na cadeira.
De imediato se gerou uma
discussão filosófica sobre os méritos da proposta, que se arrastou por muito
mais tempo que o desejável. O nosso jovem professor (seria melhor dizer
“docente”?) pediu então a palavra, perante algum espanto geral, pois ele era
apenas um novato, um convidado que nem sequer pertencia à “casa”. A sua
intervenção foi simples: “Meus senhores e minhas senhoras, vão desculpar-me
pelo atrevimento, em particular a senhora doutora A., mas queria apenas
chamar-vos a atenção para o facto de este departamento ser conhecido como
CIFOP, dadas as suas iniciais, e a mudança proposta vai fazer com que a última
letra seja outra, dando azo a um trocadilho que poderá ser deveras embaraçoso”.
Os “da casa” demoraram
dois segundos a processar a informação. Findo esse tempo, o doutor P. começou a
rir descontroladamente, no que foi acompanhado por boa parte dos restantes,
deixando a autora de tão descabida proposta mergulhada no mar de sangue que lhe
afluiu à cara quando percebeu a trapalhada em que se tinha metido. O nosso
jovem professor recebeu uma amistosa palmada nas costas e uns quantos olhares
de aprovação por ter conseguido o feito de compreender uma coisa tão óbvia
antes das sumidades todas.
Lembrei-me desta
historieta depois de ler o “folhetim” de Luiz Fagundes Duarte (doravante aqui
referido pelas iniciais LFD) no Diário Insular de domingo, 8 de junho, dedicado
implícita mas claramente a Félix Rodrigues (doravante identificado pelas
iniciais FR). Lembrei-me da historieta e tive pena, pois tinha a figura em
elevada conta, mas a falta de educação de tal escrito contrasta flagrantemente
com o alto cargo exercido nos Açores por LFD. Não que eu seja particularmente apreciador
das deambulações de FR por caminhos diferentes daqueles que a sua habilitação
académica recomenda, entenda-se. Aliás, nem sequer consigo estar de acordo com
ele em termos políticos, mas entendo que há limites para tudo e, neste caso,
foram largamente ultrapassados. LFD não é Almada Negreiros nem FR é Júlio
Dantas e nós não estamos no meio de uma qualquer polémica literária do início
do século XX. Nem sequer estou interessado em discutir quem nasceu primeiro, o
português ou a língua portuguesa.
Os académicos, não poucas
vezes, são muito bons numa determinada área, à qual dedicaram anos de vida, na
qual se especializaram e pela qual são conhecidos e, quiçá, reconhecidos, mas
quando saem dessa área de conforto, tal como o sapateiro que um dia quis ir
além da chinela, dão-se mal. Os académicos, já se sabe, passam de si uma imagem
de superioridade que nos leva a colocá-los numa espécie de pedestal virtual,
até ao dia em que percebemos que, afinal, não é bem assim, e também são pessoas
normais, que se enganam, têm devaneios, deslizes e lapsos dos quais, por vezes,
se arrependem.
No caso de um, talvez se
venha a arrepender de ter trocado os estudos de literatura pelo encerramento de
escolas (contra tudo o que vem na própria literatura); no caso de outro, talvez
se venha a arrepender de ter tentado transformar um calhau num templo…
De uma forma ou de outra,
caros LFD, FR e quejandos, deixem as tricas para a Assembleia Regional e
dediquem-se mas é ao trabalho, que é para isso que vos pagamos.
Sem comentários:
Enviar um comentário