segunda-feira, 16 de maio de 2016

90 - Onde pensas que vais, Dolores?

A respeito de uma amiga que morreu demasiado cedo. E que eu nem sabia estar doente...

Sabes, Dolores, isto assim é uma chatice. É que uma pessoa como tu não morre, apenas se torna eterna. E não há direito! Quer dizer: uma pessoa nem sequer sabia que estavas doente e, de repente, vêm dizer-lhe que ganhaste asas? Não pode ser!
Ainda no outro dia me mostravas como é que se mexia naquelas mesas de mistura com botões de fogão que o Rádio Clube tinha e agora transformaste-te numa memória? Brincamos?
E essa tua boa disposição de sempre, como é que fica? E essa tua gargalhada quando eu fazia asneira do outro lado do vidro? E a tua paciência para nos aturar tolices? Não pode ser assim tão simples, minha amiga, não te livras de nós tão facilmente. Vem aí o Carnaval, de que tu tanto gostavas, e tinhas tanto orgulho no teu trabalho a fazer ligações para que a nossa emissão saísse o melhor possível. Mesmo depois de te reformares, apareceste para dar uma vista de olhos ao que estava feito na sociedade de São Bento e ainda conseguiste melhorar lá um cabelo que estava fora de sítio a fazer um efeito qualquer no som… Hoje de manhã, o João dizia que tu foste a primeira pessoa a deixá-lo mexer nos botões… e fomos tantos a aprender contigo…
É por isso que a gente não te vai esquecer, é por isso que, mais do que olhar para as fotografias na parede do Rádio Clube à procura daquelas que têm o Tony Ramos ou o António Variações, a gente vai procurar aquelas em que tu estás. Tu foste, és e serás uma parte daquela casa, eles foram só enfeites para a festa.
Tu eras a festa.
Agora, deixaste-nos com um sentimento de vazio, e mais vazio fiquei quando a Carla me telefonou para dar a notícia e recordou como tu lhe dizias que gostavas muito da minha escrita. E eu tenho escrito tão pouco… gostava de ter uma oportunidade de te explicar porquê, só para te ver abanar a cabeça e dizer “home, isto tá tudo tolo” por entre duas gaitadas.

Descansa, Dolores. A gente vê-se por aí. E sintoniza o RCA no Carnaval e no rali, que te vamos dedicar o nosso melhor. E se a emissão aí desse lado não estiver grande coisa, faz aquilo que sabes melhor: diz ao chefe para se arredar, que já vais arranjar maneira de a coisa se ouvir em condições.

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