A respeito de uma amiga que morreu demasiado cedo. E que eu nem sabia estar doente...
Sabes, Dolores, isto
assim é uma chatice. É que uma pessoa como tu não morre, apenas se torna
eterna. E não há direito! Quer dizer: uma pessoa nem sequer sabia que estavas doente
e, de repente, vêm dizer-lhe que ganhaste asas? Não pode ser!
Ainda no outro dia me
mostravas como é que se mexia naquelas mesas de mistura com botões de fogão que
o Rádio Clube tinha e agora transformaste-te numa memória? Brincamos?
E essa tua boa disposição
de sempre, como é que fica? E essa tua gargalhada quando eu fazia asneira do
outro lado do vidro? E a tua paciência para nos aturar tolices? Não pode ser
assim tão simples, minha amiga, não te livras de nós tão facilmente. Vem aí o
Carnaval, de que tu tanto gostavas, e tinhas tanto orgulho no teu trabalho a
fazer ligações para que a nossa emissão saísse o melhor possível. Mesmo depois
de te reformares, apareceste para dar uma vista de olhos ao que estava feito na
sociedade de São Bento e ainda conseguiste melhorar lá um cabelo que estava
fora de sítio a fazer um efeito qualquer no som… Hoje de manhã, o João dizia
que tu foste a primeira pessoa a deixá-lo mexer nos botões… e fomos tantos a
aprender contigo…
É por isso que a gente
não te vai esquecer, é por isso que, mais do que olhar para as fotografias na
parede do Rádio Clube à procura daquelas que têm o Tony Ramos ou o António
Variações, a gente vai procurar aquelas em que tu estás. Tu foste, és e serás
uma parte daquela casa, eles foram só enfeites para a festa.
Tu eras a festa.
Agora, deixaste-nos com
um sentimento de vazio, e mais vazio fiquei quando a Carla me telefonou para
dar a notícia e recordou como tu lhe dizias que gostavas muito da minha
escrita. E eu tenho escrito tão pouco… gostava de ter uma oportunidade de te
explicar porquê, só para te ver abanar a cabeça e dizer “home, isto tá tudo
tolo” por entre duas gaitadas.
Descansa, Dolores. A
gente vê-se por aí. E sintoniza o RCA no Carnaval e no rali, que te vamos
dedicar o nosso melhor. E se a emissão aí desse lado não estiver grande coisa,
faz aquilo que sabes melhor: diz ao chefe para se arredar, que já vais arranjar
maneira de a coisa se ouvir em condições.
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