Não gosto muito de mudanças. Gosto do meu mundo, das minhas rotinas, de saber o chão que piso. No entanto, há mudanças que são necessárias...
Há quase duas semanas,
mudei de casa “a sério” pela primeira vez na minha vida. As condições já não
eram as ideais em vários contextos, o membro mais novo da família necessitava
de um outro tipo de espaço para si e o resultado foi a inevitável busca por uma
nova habitação para arrendar.
Podíamos ter escolhido
outra mais barata? Podíamos, mas havia pressa, e a verdade é que ambos gostámos
do que vimos e estamos satisfeitos. Para a vida toda não queria esta, mas é um
ótimo cantinho para se estar enquanto os bancos não normalizam a questão dos
créditos. Sim, é verdade: estou com vontade de construir, o terreno existe, é
de graça, mas os bancos gozam com a nossa necessidade de financiamento…
Durante estes anos todos,
fui assistindo às conversas sobre crédito fácil, dinheiro barato, fui vendo
gente com rendimentos inferiores fazer belas casas, trocar de carro duas e três
vezes, e interrogava-me sobre a forma como iriam pagar aquilo tudo. Está à
vista: não podem. Nesse entretanto, eu, estúpido, fui poupando uns trocos,
tenho capacidade de endividamento (tudo o que tenho está mais do que pago) e
agora queria financiamento e não mo dão. Ou melhor: dão, mas sujeito-me a
prestações absolutamente impossíveis, e recuso-me a viver com a corda na
garganta por causa de uma casa. Se houver algum banco disposto a apresentar uma
proposta decente, diga qualquer coisa…
Voltando à mudança, teve
o seu quê de divertido, mas também teve momentos de nostalgia. Quando fechei a
porta da casa antiga pela última vez, parei uns instantes a pensar que tinha
sido aquela a primeira casa da minha filha, tinha sido ali que lhe tinha visto
os primeiros passos… e percebi que, por muitos anos que passem, nunca
esquecerei aquele cantinho.
A humidade era o
principal problema, e este ano, depois das férias, percebemos que não podíamos
continuar ali; as roupas sofriam, a respiração também, e começámos então a
carregar a carrinha… três vezes. É incrível a quantidade de coisas que se
acumulam em caixas e caixotes, bugigangas, livros, troféus do TT, e é ainda
mais incrível a forma como encontramos coisas de que já nem nos lembrávamos.
Pior ainda foi perceber que o caixote da loiça nova, arrumado dois anos no
canto da arrumação, estava preto de humidade e a desfazer-se todo. Devíamos ter
arejado aquilo de outra forma, é certo, mas vivendo e aprendendo, já diz o
povo.
E foi então que ouvi,
enquanto escolhia alfaces no hiper, duas senhoras a falar sobre as eleições:
uma dizia que não sabia em quem ia votar e a outra, muito senhora do seu nariz,
respondia que ia tornar a votar nos mesmos, pois tinha medo do que se ia
descobrir se eles perdessem as eleições. Fiquei estarrecido. Nunca tinha
pensado no assunto com tanta clareza: se “eles” perderem as eleições, vai ser
tal e qual a minha mudança de casa, vão ser descobertas coisas que nem sabemos
que existem, vão aparecer coisas podres em cantos escuros e húmidos, se calhar
até buracos sem fundo vão aparecer…
A tal senhora que
encontrei nas compras até pode ter alguma razão, mas eu comparo agora estas
eleições a uma mudança de casa: vai dar trabalho e vamos encontrar muita coisa
escondida mas, quando a porcaria estiver toda limpa e estivermos instalados na
casa nova, vai ser um consolo… e podemos começar de novo, sem humidade nas
paredes nem bolor nos armários.
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