Uma pessoa pisca os olhos e vinte anos desaparecem naquele instante. Sem saber como, estou a comemorar duas décadas desde que fui para a Universidade. E a minha vida mudou.
Eles estavam cheios de
medo. Quer dizer…não seria bem medo, era uma mistura de excitação, ansiedade e
curiosidade para saber o que iria acontecer a seguir. Era dia 15 de novembro de
1994. Não havia telemóveis, a internet era uma coisa primitiva que muitos só
descobriram quando o mIRC foi lançado (em fevereiro de 95, já agora…) e a
televisão por cabo ainda não tinha chegado a todo o lado.
Juntaram-se todos, manhã
cedo, nos jardins. Cadernos na mão, canetas no bolso e muitos pontos de
interrogação na pasta. Será que as coisas iam ser parecidas com o ano anterior?
Será que agora o método era outro? E teriam de usar a expressão “senhor doutor”
ou podia ser só “professor”?
No bar, o Adriano e o
senhor Amaral já tinham aviado dezenas de cafés nervosos, galões pensativos e
sandes de nó na garganta. À porta das salas de aula, o burburinho oscilava
entre o tom sussurrado de quem ainda não conhecia bem os colegas do lado e as
gargalhadas dos que já traziam entrosamento de trás. E via-se uma coisa
curiosa: os grupinhos faziam-se mais por proveniência dos elementos do que
pelos cursos que frequentavam. Gente que, na sua terra de origem, só se
conhecia de vista estava agora a conversar como se fossem amigos de longa data.
Pudera. Estavam todos num barco novo e ninguém sabia bem como se remava nem
para que lado ia a maré.
Era o primeiro dia de
aulas na universidade. Alguns já andavam por lá desde setembro, pois não sabiam
ainda do adiamento da data de início das hostilidades e mandaram-se de avião
para a ilha. Não voltaram para trás, que ficava muito caro. Chegou a hora, os
senhores doutores chegaram, as salas encheram-se de gente nova.
No intervalo, as opiniões
dividiam-se. Xiiiii, estamos desgraçados, esta tipa é maluca. Oh pá, não é
nada, eu até achei que foi bem acessível. Este fulano é teso. Vocês já ouviram
falar no Dartacão? Homem, vai gozar outro. E vocês viram quando ela limpou as
mãos sujas de giz à saia? Ficou que até parecia que a tinham apalpado. Adorei
foi o bigode dele, parecia enrolado nas pontas. Aquela fulana estava a gozar
quando mandou consultar livros em russo, não estava?
Era o princípio de uma
aventura linda. Ninguém sabia o dia de amanhã naquele admirável mundo novo,
ninguém sabia se sabia estudar ou não, ninguém sabia que estava a embarcar numa
experiência que iria mudar vidas. As suas. Uns safaram-se bem, outros nem por
isso. Houve quem fosse chamado de volta a casa ao fim de um ano de muito
convívio mas pouco estudo, houve quem decidisse mudar de curso e até de
universidade, houve quem percebesse que não tinha jeito para aquilo…
E, de repente, passaram
vinte anos. Estão todos a bater à porta da ternura do Paco Bandeira e todos têm
histórias para contar. Histórias de vida. Há quem seja doutor, engenheiro,
professor, há quem seja essas coisas todas mas não faça vida do seu canudo, há
quem tenha ficado a meio da viagem, há quem esteja bem, há quem esteja mal, há
quem tenha filhos, há solteiros, casados, divorciados, há os vivos e há os
mortos, dos quais também reza esta história.
No entanto, há algo que a
todos une. Há um dia que os marcou, mesmo que muitos já dele nem se lembrem.
Outros recordam-no sempre, com saudade ou nem por isso. Já passou muito tempo,
mas as memórias do tempo em que se tornaram homens e mulheres não desaparecem.
E podem ver-se só muito de vez em quando, mas quando se veem é como se o tempo
não tivesse passado e tivessem todos outra vez 18 anos.
E, no entanto, já se
passaram vinte…
Dedicado a todos os caloiros de 1994 do polo de
Ponta Delgada da Universidade dos Açores. Sicut Aurora Scientia Lucet.
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