Onde se fala - mais uma vez - da falta de pachorra para escrever e de como uma sobremesa nos traz memórias sorridentes.
Há muito tempo que não me
apetece escrever. Ando por aí às voltas com o trabalho e com a família, vou
olhando para o que se passa à minha volta, dou comigo a pensar “isto dava uma
crónica engraçada”, digo para mim que quando chegar a casa vou sentar os dedos
no teclado mas, na hora da verdade, falta-me a vontade.
Uma pessoa lê jornais,
ouve notícias e vê reportagens com coisas mal feitas, asneiras de bradar aos
céus, mas acaba por se encolher e alinhar no coro dos que dizem que não vale a
pena, e a verdade é que não vale mesmo. E não é por falta de assunto. Várias
vezes me abordam na rua e dão sugestões, mas eu não escrevo por encomenda.
Falar mal da nova biblioteca? Para quê? Está à vista de toda a gente que aquilo
é um disparate monstro, que ainda nos vai custar mais uns bons milhões mas quem
tem o poder não faz nada. Falar mal da via rápida? Para quê? Toda a gente que
passa lá percebe que o pavimento não presta e já está cheio de rachas um pouco
por toda a parte. Toda a gente lê jornais e percebe que, como o empreiteiro já
teve de remendar a coisa duas vezes, agora lembrou-se de pôr tudo em tribunal e
exigir uns milhões de indemnização porque os papéis que o governo lhe deu
estavam errados e eles trabalharam com aquilo que lhes deram.
Ainda aqui há dias me
perguntaram o que pensava sobre a universidade. A minha resposta foi não saber
o que havia de pensar. O que é que se há de dizer de um reitor que autoriza a
abertura de um processo de contratação numa terça para na quinta mandar uma
carta ao ministro a dizer que não tem dinheiro para aguentar a porta aberta e
depois se vê forçado a anular o concurso? O que é que se há de pensar perante o
silêncio da universidade terceirense em relação ao seu futuro? O que é que se
há de pensar quando se analisam as causas e as consequências dos acontecimentos
no Porto Judeu? O que é que uma pessoa pode dizer quando vem a público que os
perigos estavam mais do que identificados e, mesmo assim, ninguém fez caso dos
avisos dos cientistas dessa mesma universidade, que produz investigação e
conhecimento reconhecidos no exterior mas desdenhados dentro de casa?
O que é que um professor
pode pensar quando ouve um médico travestido de deputado a dizer no parlamento
que não é por uma criança ter fome que tem maus resultados na escola? Passa
fora!
A coisa mais certa que li
nos últimos tempos foi a entrevista em que se dizia que a Terceira precisa de
elites. Precisa mesmo! Como de pão para a boca! Gente desapegada do poder,
gente que seja capaz de levantar a voz e dizer “não é assim” de maneira que
todos ouçam e – mais importante ainda – que todos percebam. De nada serve vir
para a rua com textos e palavreados que o cidadão comum não consegue entender.
Uma mente brilhante é aquela que se faz entender, não é aquela que se esconde
por trás da sua eloquência por se achar num nível acima.
Uma pessoa olha para
trás, vê o que caminhou, vê o que tem feito na vida e chega a um ponto em que
não percebe por que razão se deixou ultrapassar pelos acontecimentos. Mesmo
correndo o risco de parecer arrogante, acho que cheguei a esta fase, de olhar
em volta e ver gente em lugares onde nunca devia ter entrado, de ver gente em
lugares de responsabilidade e achar que era capaz de fazer melhor. Ou talvez
não, mas isso só se saberá quando (e se) as coisas acontecerem. O sofá é muito
apelativo, mas o gosto de saber que se contribuiu para a sociedade de alguma
forma não o é menos.
Estas coisas vêm à cabeça
quando menos se espera, e a torrente dos pensamentos foi iniciada desta vez por
uma sobremesa. Mesmo em tempos de crise e tendo de jogar com os orçamentos,
esforço-me para, de vez em quando, poder fazer uma pequena extravagância e,
aqui há dias, o dentinho doce puxou-me para uma coisa chamada “merengue com
frutos vermelhos”. Quando chegou à mesa, lá vinha o molho vermelho por cima de
um creme branco e, por baixo daquilo tudo, um suspiro. Um suspiro! Aos anos que
eu não comia um suspiro! Por entre os sabores da memória, vieram-me as imagens
dos suspiros em casa da minha avó, dos suspiros da Leitaria Regional, ali em
frente ao Teatro Angrense, guardados em boiões de vidro… vieram-me à memória os
pensamentos de infância, o que queres ser quando fores grande, o desfilar de
tudo o que se fez na vida, o desejar que a minha filha possa ter da sua
infância memórias felizes como o pai tem da sua, o desejar ser capaz de
contribuir para que o futuro dela seja menos sombrio do que alguns perspetivam.
E, por arrasto, veio mais
uma crónica do Eterno Estudante…
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