segunda-feira, 16 de maio de 2016

80 - A vida num suspiro

Onde se fala - mais uma vez - da falta de pachorra para escrever e de como uma sobremesa nos traz memórias sorridentes. 

Há muito tempo que não me apetece escrever. Ando por aí às voltas com o trabalho e com a família, vou olhando para o que se passa à minha volta, dou comigo a pensar “isto dava uma crónica engraçada”, digo para mim que quando chegar a casa vou sentar os dedos no teclado mas, na hora da verdade, falta-me a vontade.
Uma pessoa lê jornais, ouve notícias e vê reportagens com coisas mal feitas, asneiras de bradar aos céus, mas acaba por se encolher e alinhar no coro dos que dizem que não vale a pena, e a verdade é que não vale mesmo. E não é por falta de assunto. Várias vezes me abordam na rua e dão sugestões, mas eu não escrevo por encomenda. Falar mal da nova biblioteca? Para quê? Está à vista de toda a gente que aquilo é um disparate monstro, que ainda nos vai custar mais uns bons milhões mas quem tem o poder não faz nada. Falar mal da via rápida? Para quê? Toda a gente que passa lá percebe que o pavimento não presta e já está cheio de rachas um pouco por toda a parte. Toda a gente lê jornais e percebe que, como o empreiteiro já teve de remendar a coisa duas vezes, agora lembrou-se de pôr tudo em tribunal e exigir uns milhões de indemnização porque os papéis que o governo lhe deu estavam errados e eles trabalharam com aquilo que lhes deram.
Ainda aqui há dias me perguntaram o que pensava sobre a universidade. A minha resposta foi não saber o que havia de pensar. O que é que se há de dizer de um reitor que autoriza a abertura de um processo de contratação numa terça para na quinta mandar uma carta ao ministro a dizer que não tem dinheiro para aguentar a porta aberta e depois se vê forçado a anular o concurso? O que é que se há de pensar perante o silêncio da universidade terceirense em relação ao seu futuro? O que é que se há de pensar quando se analisam as causas e as consequências dos acontecimentos no Porto Judeu? O que é que uma pessoa pode dizer quando vem a público que os perigos estavam mais do que identificados e, mesmo assim, ninguém fez caso dos avisos dos cientistas dessa mesma universidade, que produz investigação e conhecimento reconhecidos no exterior mas desdenhados dentro de casa?
O que é que um professor pode pensar quando ouve um médico travestido de deputado a dizer no parlamento que não é por uma criança ter fome que tem maus resultados na escola? Passa fora!
A coisa mais certa que li nos últimos tempos foi a entrevista em que se dizia que a Terceira precisa de elites. Precisa mesmo! Como de pão para a boca! Gente desapegada do poder, gente que seja capaz de levantar a voz e dizer “não é assim” de maneira que todos ouçam e – mais importante ainda – que todos percebam. De nada serve vir para a rua com textos e palavreados que o cidadão comum não consegue entender. Uma mente brilhante é aquela que se faz entender, não é aquela que se esconde por trás da sua eloquência por se achar num nível acima.
Uma pessoa olha para trás, vê o que caminhou, vê o que tem feito na vida e chega a um ponto em que não percebe por que razão se deixou ultrapassar pelos acontecimentos. Mesmo correndo o risco de parecer arrogante, acho que cheguei a esta fase, de olhar em volta e ver gente em lugares onde nunca devia ter entrado, de ver gente em lugares de responsabilidade e achar que era capaz de fazer melhor. Ou talvez não, mas isso só se saberá quando (e se) as coisas acontecerem. O sofá é muito apelativo, mas o gosto de saber que se contribuiu para a sociedade de alguma forma não o é menos.
Estas coisas vêm à cabeça quando menos se espera, e a torrente dos pensamentos foi iniciada desta vez por uma sobremesa. Mesmo em tempos de crise e tendo de jogar com os orçamentos, esforço-me para, de vez em quando, poder fazer uma pequena extravagância e, aqui há dias, o dentinho doce puxou-me para uma coisa chamada “merengue com frutos vermelhos”. Quando chegou à mesa, lá vinha o molho vermelho por cima de um creme branco e, por baixo daquilo tudo, um suspiro. Um suspiro! Aos anos que eu não comia um suspiro! Por entre os sabores da memória, vieram-me as imagens dos suspiros em casa da minha avó, dos suspiros da Leitaria Regional, ali em frente ao Teatro Angrense, guardados em boiões de vidro… vieram-me à memória os pensamentos de infância, o que queres ser quando fores grande, o desfilar de tudo o que se fez na vida, o desejar que a minha filha possa ter da sua infância memórias felizes como o pai tem da sua, o desejar ser capaz de contribuir para que o futuro dela seja menos sombrio do que alguns perspetivam.

E, por arrasto, veio mais uma crónica do Eterno Estudante… 

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