Com um título destes, a crónica fala de quê? De toiros, está claro!
Há duas hipóteses para um texto com este título: ou se fala de perucas de touro ou se fala dos touros propriamente ditos. Desengane-se quem pensou que ia ler uma estória cabeluda…
Se há coisa que caracteriza um terceirense e ajuda a desbloquear muita conversa são as touradas, que despertam uma curiosidade enorme em quem nos visita. Quando estava em São Miguel, os meus amigos coriscos que me queriam “picar”, muito antes da polémica lei das touradas de praça proibir tal coisa, puxavam logo pelas festas e pelas touradas, que nos impediam de trabalhar e justificavam que a Terceira fosse conhecida como o parque de diversões dos Açores. Desgraça das desgraças, somos conhecidos fora de portas também pelo rabo torto dos cães das vacas, e lá se consolavam eles com a brincadeira, que ninguém levava a mal e sempre servia para puxar pelos talentos de imitação para falarmos como eles e desviar a conversa para outro lado.
Os colegas do continente mostravam-se sempre curiosos quanto à nossa festa brava, e lá tinha eu de explicar o melhor que podia a mecânica da coisa, e começava sempre por dizer que a tourada na minha freguesia começava sempre oito horas antes do touro sair da gaiola. É que às dez da matina já se prepara o bodo de leite (que também tinha de ser explicado…), e depois vai-se para o mato buscar os touros, que é como quem diz vamos fazer uma churrascada e beber umas frescas com os amigos. Só com a barriga cheia é que há então condições para enjaular os galhudos, que vêm em cortejo alegórico até ao arraial para descansar um bocado antes de serem chamados à rua. Eles gostavam da explicação, e já houve uns quantos que quando vieram cá fizeram questão de ir aos touros.
Claro que o melhor da festa é mesmo esperar por ela, mas mesmo assim ficavam todos confusos quando eu dizia que às vezes não via os quatro primeiros touros e andava a fugir do quinto, que eles não percebiam de onde vinha se só eram corridos quatro. E é verdade, porque houve um ano em que nas minhas duas touradas (não vou a mais, só às que me passam à porta) nem cheguei a saber se os cornos estavam lá todos.
Voltamos a São Miguel. Há uns meses atrás, tive oportunidade de correr Ponta Delgada de ponta a ponta, coisa que já não fazia há anos, e acabei a viagem no centro comercial Sol Mar, onde me esperava um Mister Burger na Paparoca. Para quem não sabe, é uma coisa nojenta que tem calorias suficientes para alimentar um touro durante um dia, e sabe tão bem que é preciso ter fome para não deixar nada no prato, que até fica feio. Adiante. Encomendei e, como de costume, fui dar uma volta pelas lojas do andar de cima, começando pela ourivesaria e acabando na livraria. Pelo caminho, a discoteca, que tinha em frente umas vinte pessoas a olhar para a montra e a rir. Curioso, aproximei-me, e qual não foi o meu espanto, quando vi que era um DVD de marradas! Parecia a montra do Pedro Amiguinho em dia de festa.
Estava tudo completamente absorvido pelo espectáculo, e nisto ouvi uma senhora virar-se para o marido e dizer-lhe que no Verão tinham de ir à Tercêra para ver aquilo ao vivo. Pelas gargalhadas dele, se ainda não vieram devem estar aí a pingar. Esta semana, no nosso hiper, estava eu no Multibanco e ouvi um Ti José dizer à Maria para ir andando para dentro, que ele ia ficar a ver a cassete dos toiros na talavisão da tabacaria. Lembrei-me logo dos coriscos… e dos colegas do continente a quem mostrei este ano uma gravação de marradas, e que mesmo sendo da protectora dos animais não deixaram de achar graça a algumas cenas verdadeiramente hilariantes.
Este nosso produto, quer-me parecer, não está a ser bem vendido aí por fora, pois isto é o tipo de coisa que atrai mosca de Verão até dizer chega e podia muito bem ajudar a encher camas por esses hotéis fora. É ver o exemplo dos nossos americanos, que saem da base à vontade sem saber conduzir e descem a Rua do Galo à procura de uma tourada no Cabo da Praia. Como aqueles deve haver muitos mais… Enfim, é só arranjar maneira de convencer os turistas do encanto de um par de cornos.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
Subscrever:
Enviar feedback (Atom)
Sem comentários:
Enviar um comentário