Houve quem chorasse a ler isto. A realidade nua e crua, que mexeu comigo e com outros colegas professores.
Vi-a sexta-feira, numa paragem de autocarro. Linda na sua beleza triste, como a conheci há seis anos quando me entrou, atrasada e decotada, na sala de aula. Tinha então 13, 14 anos, por aí. Era o tipo de rapariga que põe os rapazes nervosos e os professores de sobreaviso, pois tinha o atrevimento de quem cresceu entre mulheres feitas e experientes. A roupa limpa mas gasta e fora de moda denunciava as origens sociais, de um bairro qualquer ao qual quiseram um dia deixar de chamar “social”. Vi-a sexta-feira, numa paragem de autocarro, com um bebé ao colo.
Não parei, mas abrandei. Ela não me viu, mas eu vi-lhe nos olhos a mesma beleza triste de que me recordava quando me vinha mostrar os desenhos que fazia nas minhas pobres aulas de Educação Visual. Está bonito, dizia eu na minha piedade mentirosa de quem queria elevar a auto-estima de quem não sabia o que isso era, e ela voltava feliz para o seu lugar, para retocar qualquer coisa e fazer ainda melhor enquanto mordia a língua e olhava de vez em quando pela janela fora.
Não demorei a perceber quem era, nem a entender que era um mais do que certo caso perdido de abandono escolar. Elas são todas iguais naquelas idades, querem ser maiores do que realmente são, e quando têm um palminho de cara capaz de atrair os rapazes mais velhos tudo piora, até porque a pobreza e a riqueza têm o condão de se reproduzir sem se misturarem uma com a outra. É o fado da sociedade, e é na escola que ele começa a ser escrito… O que se previa em Outubro aconteceu em Fevereiro ou Março, já não sei bem, mas o certo é que já não chegou ao fim do ano, apesar de por mais uma vez se ter falado que tinha de continuar na escola, se não já não recebiam o rendimento mínimo em casa. De nada valeu, e soube-se depois que a paga em casa tinha sido dada em nódoas negras.
Até sexta-feira, nunca mais a tinha visto, e chocou-me aquele bebé ao colo de quem ainda não devia sequer pensado em ser mãe. A imagem não me saiu da cabeça, e não demorei mais de três horas para saber que era ainda pior do que eu pensava, tinha engravidado de um namorado que a convencera com o argumento de que assim era mais fácil arranjarem um dinheirinho extra do governo, pois o emprego estava difícil para quem não tinha sequer o 9º ano. Não confirmei a história com uma segunda opinião, mas também não tinha razões para o fazer.
Disseram-me que era uma menina, e que tinha os olhos da mãe. Talvez daqui a uma dúzia de anos eu volte a ver entrar numa sala de aulas aqueles olhos de beleza triste que nunca esqueci. Na ficha de aluno escreverá o nome da mãe e do pai, mas eu saberei sempre que é uma filha do Rendimento. E vou sorrir-lhe e fazer o melhor que puder para evitar que a história se repita. Deus me ajude. E à mãe, coitada, que bem precisa…
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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