quinta-feira, 1 de novembro de 2007

51 - Será que os toiros falam micaelense?


Numa bela madrugada, em pleno aeroporto micaelense, dei de caras com uma t-shirt que me deixou os cabelos em pé...


Não me canso de ir a São Miguel, é a minha segunda ilha e foi lá que passei um sexto da minha vida, o que só por si já seria significativo, mas o facto é que gosto mesmo daquele sítio. O problema é que à medida que vamos ficando mais velhos vamos também ficando mais despertos para certas coisas, certas realidades que por vezes ultrapassam a mais imaginativa das ficções.
Não me vou pôr agora aqui a chorar sobre o poder e o dinheiro que lá existe e cá não, pois está mais que visto que isso é perder tempo. A maior parte dos habitantes dos Açores é micaelense, o que quer dizer que é lá que se ganham ou perdem eleições, por isso está tudo dito. E não tenhamos dúvidas: atrás de uma coisa vem outra, e é por haver tanta gente que há tanto dinheiro à solta em Ponta Delgada e arredores, pois fora desse grande centro tudo o resto é à dimensão do resto do arquipélago.
Temos assistido nos últimos tempos a uma enorme discussão sobre os fluxos turísticos rumo à Terceira e sobre aquilo que há para atrair visitantes e – principalmente – mantê-los durante uns dias na Ilha Lilás. Existe de facto muito que fazer por cá, mas é necessário organizar as coisas de maneira a que a oferta seja clara e objectiva, propondo aos turistas um leque de actividades capaz de os fazer sentir apoiados e de os levar a compreender o que estão a fazer e o contexto em que estão envolvidos.
Nos últimos tempos, por razões que são só minhas, tenho mostrado a ilha e o que ela tem de melhor a alguém que não a conhece. A reacção é sempre de surpresa e agrado, à mistura com grande curiosidade sobre os quês e os porquês das coisas, e já ouvi mais do que uma vez essa pessoa dizer que “no continente ninguém faz ideia do que isto é”. Pelo meio, tive a sorte de encontrar numa tourada (onde mais?) um casal holandês que caiu lá de pára-quedas e estava muito admirado por ser tão bem recebido numa casa de gente que não os conhecia de lado nenhum. O voluntário à força para lhes explicar as coisas fui eu, pois mais ninguém falava inglês, e uma das coisas que me fez soar as campainhas de alarme foi o facto de me dizerem que tinham decidido aproveitar a passagem pela Terceira a caminho de São Miguel, because in Holland the only information we have is about the other island, the capital of the Azores. Ou seja, a informação que tinham era toda sobre a “capital”… Enfim, da tourada eles gostaram, agradeceram muito a atenção e as cervejas, e lá seguiram o seu caminho. Para trás fiquei eu e a minha “turista”, que fazia também a sua estreia nas touradas, e até já levou um DVD de marradas para mostrar à família, que parece ter gostado (ai não!).
Com tudo isto, veio-me à memória uma conversa tida em São Miguel há coisa de um mês, com um amigo agente de viagens, que me disse que a nossa sorte era não haver lá touradas, porque se não então é que não tínhamos hipóteses. Ainda me ri e disse-lhe que isso era o que eles queriam, e a conversa ficou mesmo assim, mas no dia seguinte, às sete da manhã, estava no aeroporto, sem pinga de sangue, a tirar a fotografia que acompanha este artigo, uma t-shirt na montra da loja de produtos regionais. Como uma imagem vale mais do que ml palavras, só vos digo que olhem para ela com atenção, e talvez aí percebam o porquê de eu ter entrado no avião a dar graças ao Espírito Santo por não haver touradas em São Miguel. É preciso ter lata!


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