quinta-feira, 1 de novembro de 2007

36 - Não há água quente!

Uma reflexão sobre a nossa incapacidade de regressar aos instintos mais básicos. Não é das coisas melhores que já escrevi, mas neste dia deu-me para isto...

Somos mesmo uns tristes. Séculos de desenvolvimento o melhor que nos conseguiram fazer foi transformar uma raça inteligente e dominadora nuns mariquinhas pé-de-salsa que já não sabem viver sem as comodidades do progresso…
Acordei aqui há dias com exclamações muito… exclamativas vindas do andar de baixo, mais propriamente da casa de banho. Era o meu colega de casa aos gritos porque estava a tomar duche de água fria. Bem feito, pensei eu, tivesses tomado banho ontem à noite. Só que nessa noite quem se tramou fui eu, e já não achei assim tanta graça. O que parecia ser uma simples questão de garrafas de gás fora de prazo acabou por ser um problema de canos entupidos que ameaçou dar-nos cabo do juízo até ao Verão. E desde que me vi obrigado a esventrar metade de uma casa por causa de um cano roto passei a ter muito respeitinho por aqueles insignificantes tubos enterrados debaixo do chão… já estava mesmo a ver o filme a repetir-se todo. Mas se eu até tomo banho de água fria de vez em quando porque me apetece, já o meu sócio mostrava-se irredutível e chamou ao senhorio os nomes todos possíveis e imaginários…
Está-se mesmo a ver que o coitado do homem não tinha culpa nenhuma e que era uma cabeça quente a falar para não estar calada, mas foi o suficiente para me pôr a pensar na forma como somos dominados – passe a expressão – por coisas tão simples como uma torneira ou um interruptor de electricidade. Hoje em dia é absolutamente impensável na nossa sociedade viver sem estes dois símbolos do progresso e do conforto da humanidade, mas apesar disso ainda há muito boa gente a viver sem água nem luz em casa. Lembro-me de ter ficado chocado aqui há uns dois ou três anos por ver a inauguração, com pompa e circunstância, do primeiro posto de transformação da EDP numa aldeia perdida nos confins de Portugal. Como é possível? Lisboa tem candeeiros eléctricos nas ruas há 150 anos…
Tudo isto para dizer o quê? Para perguntar quanto valemos nós de facto se tivermos de regressar às origens. Tente imaginar a vida sem água canalizada, electricidade e automóveis. Tudo aquilo que somos e fazemos depende em larga escala destes factores, e quando falta um é o caos. Ainda não há muito tempo, bastou dizer que havia pouca gasolina e foi toda a gente cheia de sede encher garrafões e rebentar estupidamente com o stock. Quando falta a água é outro disparate de lamúrias, que não se pode lavar a loiça nem a roupa, nem cozinhar, nem tomar banho, nem lavar o carro, e por aí fora.
Contudo, na Terceira estamos mesmo habituados é a que falte a luz. Isso é que é bom. E tem vantagens. Não há televisão, rádio só a pilhas e é se o emissor estiver a funcionar, por isso o melhor mesmo é acender as velas ou, melhor ainda, os candeeiros a petróleo, e… conversar. Muito simplesmente, conversar. Quantas e quantas famílias não beneficiariam de uma noite a conversar ou a jogar às cartas à volta da mesa. Quantos jogos infantis não ressuscitariam das trevas (literalmente…) para animar o serão? E se se conseguissem juntar avós e netos, melhor ainda, pois parece que os “velhotes” ganham outro encanto quando estão às escuras…
A realidade mais prosaica, no entanto, é outra, e manda que se diga que a Terceira é (quase de certeza) a ilha onde há mais cortes. Estive cinco anos em São Miguel, e lembro-me de faltar a luz duas ou três vezes, estou há quase três na outra ponta do arquipélago, e só por uma vez precisei de acender a vela.
Eu até gosto de conversar e de jogar às cartas (se for dominó, prefiro!), mas gosto de saber que o frigorífico vai resistir aos arranques da central do Feiojardim e que o computador não vai precisar de uma nova fonte de alimentação… e que vou conseguir fazer pipocas, pois em casa só havia das de microondas.

Sem comentários: