quinta-feira, 1 de novembro de 2007

28 - Um telemóvel no microondas

As coisas que acontecem numa tourada na Terra-Chã...

Não sou uma daquelas pessoas que possam ser consideradas como malucas por festas, mas sou festeiro à minha maneira pouco expansiva por fora e muito intensa por dentro. Como terceirense que sou, mal seria se não apreciasse as touradas, mas manda a verdade que diga que não dou um passo para ver uma tourada à corda fora da minha freguesia.
Se em Agosto não há problemas para lá estar na altura da festa de Santo António, pelo bodo a coisa há anos que está complicada, mas só por duas vezes a viagem não se fez, devido a compromissos estudantis. Desta vez, uma aberta no calendário de trabalho foi o suficiente para não perder a festa. Logo na quinta-feira antes do Bodo, uma chamada telefónica a informar-me que havia um “casamento” no Bodo de Leite retirou todas as dúvidas que ainda pudessem existir, e vamos embora para casa que há uma limousine especial a ser preparada para o casamento, coisa que não se pode perder.
É pela festa antes, durante e depois dos toiros que a tourada vale a pena. Cortar dois carros ao meio, deitar fora as traseiras e construir um carro com duas frentes é daquelas coisas que não lembrariam ao diabo, mas foi isso mesmo que se fez, e para complementar a invenção lá se arranjou um jipe alegórico para servir de cama das ofertas aos noivos, convenientemente adornada com uns caixotes de Malaquias em laços de fita branca… um sucesso! Bocas caídas de espanto ao ver um carro que não se sabia se ia se vinha, muitas gargalhadas à mistura, venha de lá uma fatia de massa e um copo de leite, ateste-se com um copo de tinto, e ala para o mato buscar os toiros.
Durante anos, por herança familiar, devo ter sido o mais novo confrade da festa que se faz no mato, à qual não podem faltar as cavalas secas ou as malaguetas salgadas à Manuel Cabreiro, as favas escoadas à moda do Jorge ou os chicharros de molho cru à moda do Zeca, bem acompanhados por umas cervejas à moda de todos. Este ano, houve um americano que teve a sorte de cair no meio desta festa pela primeira vez, e logo com uns anfitriões que fizeram questão de o fazer sentir em casa. Houve primeiro quem dissesse que dali a bocadinho (depois de meia dúzia de frescas, entenda-se…) ele já falava português, mas a aposta mais forte dizia que dali a bocado ele já nem inglês falava, hipótese aprovada por entre gargalhadas e mais uma dentada na cavala seca ainda quente da grelha.
What fish is this?
It´s mackerel.
Mackerel? Mackerel doesn´t taste this good in America!
Tradução: Que peixe é este?
É cavala.
Cavala? A cavala não sabe assim tão bem na América!
Dizer mais do que isto é dizer demais, não acha? Eles até podem achar que os nossos produtos não têm qualidade, mas quando lhes ferram o dente…
Mais uma vez, os toiros ao fim da tarde passaram quase para segundo plano. Ainda vi a cor a dois deles, mas já houve anos em que nem deu para ver se tinham os galhos todos no sítio. De casa de um para casa de outro, o convívio sobrepõe-se a tudo, e acaba invariavelmente com uma cantoria improvisada em casa de alguém, com as rimas a saírem escorreitas como o sumo de cevada que pelas gargantas escorre nestes dias.
Todos os anos há histórias que ficam para contar, seja de uma corrida contra o toiro, seja de uma mangueira esquecida que serviu para simular uma valente mijeira (desde esse dia que o dono da casa esconde a mangueira no dia dos toiros… por que será?), seja da carneirada às onze da noite no pátio da casa do vizinho, seja da palmada nas costas que deu em crise de vomitório gregoriano, enfim, um nunca mais acabar de recordações hilariantes. Este ano não foge à regra, e só tenho pena de não ter visto a cena: um telemóvel escondido num microondas que começou a funcionar assim que a porta se fechou, o consequente resultado e a óbvia conclusão: telemóvel cozido não faz chamadas nem encomenda peças…
Não, decididamente, os dias de tourada na Terra-Chã não são para esquecer. São para lembrar e para continuar por muitos anos. Porque a gente merece e porque assim a vida tem mais sabor.

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