quinta-feira, 1 de novembro de 2007

53 - Ir para fora... mesmo!

Saí de Portugal pela primeira vez, e adorei. A minha namorada pôs-me a viajar, e cada vez fiquei a gostar mais dela...

Viajar abre horizontes, está escrito nos livros, mas essa sempre foi uma teoria que nunca pus em prática, e nunca me senti mais fechado por causa disso, mas este Verão decidi mandar às urtigas o “vá para fora cá dentro” e mudei-me de armas e bagagens para Barcelona durante uns dias. Férias, verdadeiras férias, longe de tudo o que fosse vagamente parecido com uma cara conhecida, para refrescar corpo e alma, rumo a um novo ano de trabalho.
De regresso a Portugal, é tempo de balanço. Para começar, Barcelona é uma cidade surpreendente, ainda mais para quem nunca tinha posto os pés no estrangeiro, por isso que me perdoem os mais viajados se o que vão ler lhes parecer demasiado ingénuo. Há gente de todo o lado e por todo o lado, numa espécie de caos semi-organizado que alcança o expoente máximo na fantástica Rambla, uma imensa rua onde se pode encontrar de tudo à venda mas também apreciar a arte de estátuas vivas, de pintores que talvez um dia sejam famosos, ver um espectáculo de breakdance, passear de carroça ou de bicicleta enquanto se corre o risco de nos cruzarmos com uma qualquer estrela do desporto ou do espectáculo.
Uns quilómetros mais acima, a Avenida Diagonal, com 13km de comprimento (sim, leu bem, é uma avenida com TREZE quilómetros…), faz La Rambla parecer pequena, mas justifica o tamanho com a imensidão de lojas das marcas mais exclusivas do mundo e com a concentração de multinacionais e bancos. E com um pormenor: está cheia de árvores em toda a sua extensão, para suavizar os efeitos do trânsito intenso, com quatro faixas de rodagem para cada lado… é maior que a nossa via rápida, só para se ter uma ideia. Na montra de uma ourivesaria, a título de exemplo, estavam expostos relógios de 20 mil euros, e para se entrar era preciso tocar à campainha, para termos o prazer de ver um funcionário impecavelmente vestido e barbeado a abrir-nos a porta com um enorme sorriso, mesmo que estivéssemos de t-shirt e chinelos…
O principal, no entanto, foi mesmo ver a organização com que o turismo funciona. No aeroporto, perguntámos qual a melhor forma de chegar ao hotel, e em dois segundos estava um mapa aberto no balcão, com a indicação do autocarro e do metro a tomar. Quinze minutos e cinco euros depois, já estava a desfazer a mala, não sem antes ter visto a construção mais assombrosa da minha vida: começada a construir ainda no século XIX e ainda em obras, a Catedral da Sagrada Família desafia a imaginação do mundo, que a olha deslumbrado e esmagado pela imponência das suas torres com cem metros de altura. Para lá entrar, são oito euros, mais dois para andar no elevador que nos coloca lá em cima, depois de hora e meia na fila…
Tudo se paga em Barcelona, e só no Castelo de Montjuic nos deixam passar a muralha de borla, pois lá dentro há um museu militar com direito a bilheteira. Truque: antes de começar as visitas, comprar um bilhete para andar no autocarro turístico. O dinheiro que custa foi recuperado com os mais de cem descontos que oferecia nos sítios mais variados, desde o McDonalds ao Museu Picasso. Um exemplo de organização e entendimento entre as diversas entidades envolvidas. Em Barcelona, tal como em Angra, há muito Património Mundial, mas é rentabilizado, e ao entrar no referido castelo confesso que fiquei a perceber bem as vantagens de retirar a tropa do nosso quartel, transformando-o num pólo de atracção e – porque não – lucro turístico. As próprias igrejas têm todas lampadários electrónicos, em que se coloca uma moeda e acende uma luz a fazer de vela…
Falar de Barcelona e não falar de Antoni Gaudí é impossível, pois o seu trabalho está por todo o lado. Para quem não sabe, trata-se do arquitecto responsável pela catedral que já referi e por mais uma série de construções simplesmente impossíveis de descrever. São estranhas à vista, e fazem-nos ver que a fronteira entre ser génio ou ser louco é mesmo muito estreita, mas as pessoas fazem bicha para entrar, e pagam bem por isso. A casa Millá, só por si, vale a visita, mas se puder ir também à Casa Battló, ao Parque Guell e dar uma volta no tal autocarro, já valeu a visita.
É claro que comparar Angra com Barcelona vai quase dar ao mesmo que tentar enfiar a igreja na sacristia, mas salvaguardando as devidas distâncias dá para tirar umas ideias. Na capital da Catalunha convive o turismo de massas com o de “gente rica”, cruzando-se ambos na rua, e comem todos na mesma esplanada, numa mistura que permite, por exemplo, ver duas loiras com ar sueco a comer uma paella na mesa ao lado de dois paquistaneses de turbante, deliciados com tapas à espanhola e cerveja alemã. Uma cidade do mundo…
E para cá, que ideias se podem trazer? Muitas, a começar pela organização da oferta, que está a dar entre nós os primeiros passos. Quando essa parte estiver feita, o resto das ideias vem por si…

PS – Só para começar a organização: e que tal alguém tentar explicar-me porque razão a TAP me pediu 400 euros por um bilhete de ida e volta no voo directo para o Porto, tendo eu conseguido o mesmo bilhete dias depois por 250 euros? Não dá para acreditar, mas é verdade.

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