quinta-feira, 1 de novembro de 2007

43 - Bom dia, Sr. Secretário!

Esta é forte! A alma veio toda para o papel, e os resultados foram muito para além do imaginável: fui aplaudido, elogiado, copiado e vi o problema resolvido (parte dele, pelo menos...).

Bom dia, Sr. Secretário! Há que tempos não nos falamos! Como vai o senhor? Bem? Olhe, eu cá só não vou melhor porque o senhor não me deixa. E porquê? Oh homem, ainda precisa de perguntar porquê? O senhor desculpe, mas parece-me que não conhece bem a realidade do ensino “menor” neste país. Na universidade as coisas são diferentes, eu sei, pois também já dei aulas lá, e por lá até podia ter ficado, mas as leis são o que são, paciência. Eu não sei se na universidade o senhor não trabalhava, e por isso acha que os seus soldados rasos também não trabalham, mas a verdade é que trabalham, e muito.
Mas o senhor é esperto, conseguiu pôr a opinião pública toda contra os professores, com estudos feitos com base em países civilizados na sua organização e mentalidade, coisa que por cá não acontece, para mal dos nossos pecados. Para todos os efeitos, nós não queremos é trabalhar, não é verdade? Tem consciência da injustiça que está a cometer? Eu, que adoro o meu trabalho e me sinto numa sala de aula como peixe na água, estou desmotivado como nunca pensei ser possível. Este ano tenho até a possibilidade de fazer a coisa um pouco mais descansadamente, pois só tenho um nível, mas tenho saído da escola de rastos, pois sou obrigado a estar lá à espera de que alguém me saiba dizer o que fazer, coisa que ainda ninguém sabe. E isso desgasta, mói, desanima até mais não. Eu tenho até pena dos conselhos executivos, pois esses é que apanham com as nossas reclamações em primeiro lugar. A eles só lhe foi dito que tínhamos de ter 26 horas marcadas, mas não lhes explicaram como é que se ia trabalhar, se nas escolas não há espaço, materiais e condições para fazermos seja o que for…
Sr. Secretário, não há um único professor que não queira trabalhar, mas a verdade é que assim não dá. E não dá porque, além de toda esta questão estar a ser baseada naquilo a que se pode chamar de desconfiança na classe docente, a realidade dos factos é bem diferente. Diz o senhor que as nove horas que restam para as trinta e cinco que compõem o horário de um qualquer funcionário público são suficientes para preparar as aulas, corrigir testes e trabalhos, fazer reuniões, e por aí fora, mas por aqui se vê que o senhor de professor tem muito pouco, ou então é um génio, a quem peço lições de como trabalhar. Vamos a contas!
A preparação de aulas é um trabalho moroso que, mesmo que parta de uma planificação-base comum a um grupo de professores, tem de ser adaptada não só às turmas e aos alunos de cada um mas também ao seu próprio estilo e método de dar as aulas. Fiz a experiência: para preparar uma semana de aulas, com exercícios diferenciados e conteúdos adaptados, levei mais ou menos seis horas. Até nem correu mal. E eu tenho só um nível! Quem tem dois ou três é só multiplicar. No ano passado, tinha eu 11º e 12º ano, cheguei a levar oito horas à volta da preparação de uma semana de aulas para os mais velhos. E compensou, pois que eu saiba só três dos meus alunos não passaram no exame nacional. Vale o que vale, mas é só para o senhor saber e não me chamar de incompetente. Restaram-me, portanto, três horas para chegar às 35 (26+6=32). Decidi pedir um trabalho de casa às minhas turmas, recolhi-o, e como tenho uns noventa alunos, a conta é fácil: se levar, por miséria, cinco minutos a corrigir cada um (levo mais, note-se…), gasto 450 minutos, qualquer coisa como… quase oito horas!!!
E ainda tenho que fazer teste esta semana, o que significa que vou levar bem à vontade umas duas ou três horas a dar-lhe corpo. E já vou em quarenta e três horas, com contas feitas por baixo. Como o meu horário é de 22 horas lectivas, mais quatro para completar as tais vinte e seis que o senhor encontrou graças aos segmentos de 45 minutos, mesmo que tivesse só as tais 22 marcadas, continuava a trabalhar sempre mais do que 35 horas semanais. Esta é que é a verdade! E na semana em que tiver que corrigir os testes, garanto que vou chegar bem perto das 50 horas de trabalho!
Sr. Secretário, já que mais ninguém parece ter a coragem de dar a cara (estão todos com medo!!!), dou eu, e faço o que nenhum sindicato fez: desafio-o a substituir-me durante uma semana no meu serviço. Desafio-o a cumprir o meu horário à risca, o horário de uma classe trabalhadora e honrada que se sente insultada por quem tinha e tem a obrigação de a defender e de lhe dar condições materiais e psicológicas para fazer aquilo que quer, pode e sabe: TRABALHAR! Se o senhor conseguir provar que estou errado, estendo-lhe a mão à palmatória e peço-lhe desculpa nestas mesmas páginas.
Tenha um bom dia, Sr. Secretário. Eu vou tentar…

Sem comentários: