Um restaurante com um nome estranho, mas um serviço impecável e uma comida de chorar por mais. Fica em São Miguel, e já lá voltei para confirmar. Estava ainda melhor!
Cada vez que saio da Terceira regresso com uma ou outra visão diferente de algumas coisas que por cá se passam, seja em que aspecto for. Há quase um mês fui a São Miguel, e voltei meio pasmado com um “pequeno” pormenor, que me deu muito que pensar: a vida nocturna. É impressionante o salto que Ponta Delgada deu a este nível, arrastando atrás de si pelo menos os concelhos limítrofes e proporcionando aos seus habitantes espaços em quantidade e qualidade para que o cliente possa optar, diversificando a oferta e estimulando a procura.
Há onze anos, quando fui apresentado à “capital”, só os fantasmas circulavam à noite pelas ruas de Ponta Delgada. Era o Cantinho dos Anjos para a malta nova, o Calema para os mais velhos, o Xantarix e o John’s Pub para quem tinha dinheiro, e duas discotecas para quem quisesse. E havia, claro, o bar da universidade, com o seu ambiente muito próprio. Hoje, abstenho-me de enumerar a imensidão de portas abertas à espera de quem quiser entrar, algumas delas com um porteiro a fazer de peneira. Respira-se vida, confiança e – até! – segurança em Ponta Delgada. Fico feliz por isso. E na Terceira?
Há vida, certamente, mas a confiança e a segurança estão nitidamente em declínio. De segurança nem falo, pois não vale a pena repetir o que outros já disseram, mas a nossa confiança está mesmo pelas ruas da amargura. À noite, quem quer sair em Angra não tem muito por onde se virar, e é certo e sabido que vai encontrar multidões nos sítios para onde for. Não cabe mais uma sardinha, mas lá se arranja forma de esticar a lata… Na Praia as coisas estão um pouco melhores, mas nem por isso a lata estica menos, até porque são muitos os angrenses que para lá emigram a partir da meia-noite.
Deixemos por agora de parte o verbo “Haver”. Quem ouviu a reportagem da Antena 1 sobre o “estado de alma” da Terceira não pode ter deixado de ficar à beira de uma depressão. A economia até pode não dar todos os sinais de estar deprimida, mas para lá caminha. Os números em relação ao turismo são avassaladores (estamos a levar uma tareia monstra, para quem não sabe), andamos com as tetas das vacas na mão à procura de mais quota leiteira, temos uma universidade que parou no tempo e que para muitos nunca chegou bem a ser uma universidade, os nossos patrões não estimulam os empregados, os empregados não têm vontade de trabalhar, e por aí fora. O poder, disse Cunha de Oliveira, nunca devia ter ficado em São Miguel, pois lá não têm a noção de arquipélago. É verdade que sim, mas quem “deixou” que isso acontecesse não fui eu, foi ele e os outros do seu tempo que não souberam ou não quiseram impor-se. O nosso pensador diz que é preciso uma nova autonomia. Talvez sim.
Mas o que tem isto a ver com a noite? Tudo. A aposta na noite é um reflexo da confiança que se tem no dia, e a pobreza que por cá se verifica tem raízes, como se disse no referido programa, na pobreza e no marasmo político em que a Terceira caiu. Faltam líderes, disse-se, e bem. Faltam líderes de pensamento mas, sobretudo, de acção. Falta agir em defesa dos interesses da Terceira e dos terceirenses, falta valorizar aquilo que é nosso, dar-lhe um verdadeiro impulso, dar um puxão de orelhas à Sata (quando se escreve Sata o computador corrige automaticamente para Satã! Há coincidências felizes…) que desequilibra o arquipélago, falta provar e dizer alto e bom som que Angra é, em todos os sentidos, a capital da boa vida, não é só nas t-shirts.
Na tal viagem a São Miguel, fui jantar à Ribeira Grande com os meus sócios e amigos. Era, para todos, a estreia no restaurante “O Gato Mia”. Um nome estranho, que nos tinham dito esconder uma cozinha de mão cheia. Não nos enganaram. Das entradas à sobremesa, passando pelo atendimento, saí de lá cliente, mas foi o aperitivo que me deixou de boca aberta. Mal nos sentámos, à nossa frente nasceram copos de pé alto, para os quais jorrou de imediato o “aperitivo da casa”. “É muito bom, senhor, prove que vai gostar. É vinho verdelho da Ilha Terceira”. Verdelho dos Biscoitos dado a provar num restaurante em São Miguel! Percebem onde quero chegar?
Por cá nem somos capazes de ter uma garrafinha aberta para os turistas, quanto mais para os locais. Podemos queixar-nos o quanto quisermos que eles comem tudo e não deixam nada, mas parece-me bem que para começar temos de ser nós a proteger melhor o nosso prato. O Gato Mia, mas é em São Miguel…
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
Sem comentários:
Enviar um comentário