Esta veio na sequência do mal entendido referido na anterior...
Há na banda desenhada do Recruta Zero várias personagens paradigmáticas da nossa vida do dia-a-dia, a começar pelo próprio Zero, o protótipo do magala preguiçoso que tenta ser sempre mais esperto que o terrível Sargento Tainha, que faz jus ao nome pregando inenarráveis “tainhas” no lombo dos soldados sob o seu comando. Depois há o Cosme, sempre com os seus esquemas para conseguir vender coisas aos camaradas, nem que seja um guarda-chuva furado com o argumento que assim é possível espreitar a Dona Teté pelos buraquinhos. Há o Quindim, engatatão-mor da Companhia, o Platão, que sabe tudo sobre tudo, desde que seja filosofia, o tenente Escovinha, arrogante e mandão, o Capitão Durindana, um dos poucos com juízo no meio daquela confusão toda, tal como o Major, cujo nome não me lembro agora, e o General Dureza, que manda na tropa mas é mandado pela mulher, e por aí fora.
O general é, no fundo, uma fachada, uma figura decorativa que tem alguém por trás a puxar os cordelinhos enquanto ele se vai divertindo a beber Martini em copos de cristal. Quando há uma discussão no quartel o general prefere perguntar a toda a gente o que fazer, mas é quando chega a casa e fala com a mulher que a coisa se decide. E se por acaso ele decidiu sozinho é certo e sabido que a mulher lhe vai moer a paciência até adormecer, pois vai achar que a decisão foi errada.
Lembro-me de ler uma história em que o general ficou sem saber o que fazer quando estalou a discórdia no quartel, pois os recrutas reclamavam promoções, mais e melhores regalias, menos tareias do sargento, e outras coisas do género. O general, atarantado, ficou a ver a discussão, entalado entre as várias facções, e só se mexeu quando já havia consenso. Consenso como quem diz, pois o que salvou o dia foi o Sargento Tainha, que apareceu em cena e estragou a festa dos outros tropas, distribuindo “fruta” a torto e a direito e colocando toda a gente a limpar retretes durante um mês, sem direito a sair no fim-de-semana. Depois, foi para a cozinha e pediu ao Cuca (tinha-me esquecido do cozinheiro do quartel, é verdade!) uma fatia de bolo de chocolate. Só uma, pois está sempre de dieta…
Vem esta lenga-lenga de banda desenhada a propósito de tantos e tantos “generais” iguais a este que andam por aí em altos cargos só porque foram subindo a escada do poder, quase sem se dar por eles, e sem que demonstrem verdadeiras capacidades de liderança, sendo mesmo contestados internamente no quartel, mas de mansinho, para que no quartel do vizinho ninguém saiba que o líder melhor não era aquele, mas foi o que se pôde arranjar. Quantas e quantas vezes já ficaram com a sensação de ter encontrado alguém assim, num lugar de topo? Ao longo da vida certamente já encontrámos (e talvez iremos continuar a encontrar…) muitos assim, daí que é necessário que sejamos capazes de distinguir o trigo do joio, o general do pau-mandado.
Aproximam-se tempos perigosos, e vai ser melhor que estejamos todos alerta para os “generais” à nossa volta… Há uns que apenas largam cheiro, e outros dos quais podemos espremer sumo. O difícil é distingui-los… ou talvez não!
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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