Não me podia ir embora das Flores sem me despedir de todos. Foi esta a forma que encontrei, e não consigo reler isto sem que uma lágrima teimosa me apareça no canto do olho...
Estou, como sabem, de regresso à terra. A despedida foi dolorosa mas ao mesmo tempo doce, e o equilibrar das emoções não foi nem tem sido fácil, mas nada que o tempo não resolva. Vim-me embora, mas deixei uma mensagem de despedida para publicação no jornal O Monchique, que inicialmente não era para ser publicada também aqui, mas acho que devo isso aos meus leitores, que me acompanharam fielmente ao longo de tanto tempo. É essa despedida que agora partilho convosco porque, no fundo, o Eterno Estudante é só um, esteja onde estiver.
Existem acontecimentos que marcam e mudam a vida de todos nós. Na maior parte dos casos, as coisas acontecem sem que nos apercebamos, de forma gradual, mas sempre com um dia, uma hora como ponto de referência. Para mim, o dia 11 de Junho de 2002, às 18:30, é esse ponto. Foi então que descobri que os próximos três anos da minha vida seriam passados na ilha das Flores. O que nessa altura parecia ser o céu a cair sobre a minha cabeça veio a tornar-se numa experiência de vida que nunca mais esquecerei.
Saio das Flores mais açoriano do que quando entrei. Aprendi o que é ser – de facto – ilhéu, o que é estar sujeito às agruras do isolamento a que a ilha está sujeita, não só por força dos ventos e das águas mas também por aquilo que, ao fim de três anos, me parecem ser erros de concepção estruturais que não são agora para aqui chamados. A vivência das gentes florentinas é diferente, é marcada e determinada por séculos de dificuldades que se reflectem até na mentalidade dos mais novos, alguns dos quais até parece já nascerem desanimados e conformados com um futuro que só a eles cabe melhorar, sem que isso signifique deixar definitivamente a terra que amam.
Saio também mais homem e mais professor. Conheci colegas de todo o país e da região, troquei experiências, fiz amizades para a vida inteira, e percebi que é nas situações de dificuldade que se revela o melhor e o pior daquilo que somos. Juntar no mesmo saco uma quantidade de gente arrancada sem dó nem piedade à família, aos amigos e ao seu contexto social é uma experiência sociológica de valor inestimável, e merecia ser estudada, sem dúvida alguma. Os ódios, as paixões (as paixões…) crescem até limites nunca antes explorados, e com eles crescem as personalidades de jovens docentes, inexperientes e cheios de vontade de fazer o melhor, de se manterem ocupados, pois é o trabalho que ajuda a não lembrar o que ficou para trás. É traumatizante e, ao mesmo tempo, enriquecedor.
E depois há os alunos. Os bons, os maus, os trabalhadores, os preguiçosos… Com todos os meus alunos, sem excepção, aprendi alguma coisa. Aliás, não exagero quando digo que não sei se alguma vez irei encontrar alunos como os das Flores. Adoro-os, e eles sabem disso. Se a vida fosse justa para todos, eu ficaria ainda mais dois anos nas Flores, para acabar aquilo que comecei, para levar os meus meninos e meninas até ao fim do “colégio”, como eles dizem. Mas a vida não é justa, e por isso chegou a hora de partir. Regresso à minha terra para recomeçar quase tudo de novo, para o bem e para o mal. Quem vier atrás de mim herda um grupo de miúdos fantástico, que só não fará mais nem melhor se não quiser.
Não me consegui despedir de toda a gente como gostaria, nem mesmo de quem mais gostava. Prefiro guardar a última imagem e pensar que nos podemos reencontrar um dia destes algures por aí. Aos colegas que conheci nestes três anos, que dizer? Uns mais do que outros, todos deixaram em mim a sua marca, e há muitos que passaram a fazer parte de mim e nunca serão esquecidos. Estejam hoje onde estiverem, desejo-lhes as maiores felicidades.
Aos florentinos que conheci, deixo o meu agradecimento pela forma simpática como me trataram, em particular às gentes da Fajãzinha a quem fico a dever uma visita sempre adiada. Deixo ainda, que me desculpem a franqueza, um lamento pela forma como são encarados os professores de fora que vão trabalhar para as Flores. Por várias vezes tive a sensação de que éramos vistos como máquinas e éramos controlados sempre que púnhamos o pé no aeroporto. Conheci nas Flores maus profissionais do ensino, mas em três anos conto-os pelos dedos de uma só mão, pelo que faço um apelo para que os próximos a chegar sejam um pouco melhor recebidos. Depois se verá se merecem ou não continuar a ser bem tratados, e estou em crer que sim.
Por último na escrita mas em primeiro no pensamento, aos meus alunos deixo beijos, abraços, e a promessa de nunca os esquecer. Mesmo à distância, vou tentar acompanhá-los e saber como vão (espero que nunca deixem de me mandar aqueles e-mails tão lindos…). Tentei ensinar-lhes que há mais na vida do que apenas estudar, mas que enquanto se estuda se deve dar tudo, pois pode ser a porta aberta para um futuro melhor. Não me esqueço do dia em que entrei numa sala com uma aula preparada ao milímetro e dei de caras com uma turma toda de mau humor. Caras fechadas, atitude de derrotados como nunca os tinha visto. Arrumei tudo o que tinha preparado e estive 45 minutos a devolver-lhes o sorriso e a esperança, depois de uma situação menos agradável com outro professor. Eles agradeceram no fim, mas não era preciso. Aprendi muito mais nessa aula do que eles, e se calhar eu é que devia ter agradecido. Pude ver ao vivo como pensa um aluno e o que ele espera de um professor. Nesse dia, abriram-se comigo e eu com eles. Eu sou exigente com eles, mas comigo também, e gosto de pensar que foi essa uma das chaves do nosso bom relacionamento. Obrigado a todos, sem excepção, pelo muito que me ensinaram.
Voltarei um dia, não sei quando, para matar saudades. Até lá, a todos, bem hajam!
Um grande abraço do professor Jorge Silva.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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