quinta-feira, 1 de novembro de 2007

30 - Os dois lados de uma bola

Não sabe quais são? Leia até ao fim...

Há uns meses atrás, como o programa da disciplina incluía a crónica como conteúdo a leccionar, “descaí-me” e contei aos meus alunos do 10º ano que também escrevia de vez em quando umas coisas parecidas com crónicas. Acharam piada ao facto de terem um professor que pratica o que prega, e o certo é que a matéria até entrou relativamente bem naquelas cabecinhas pensadoras.
Hoje de manhã, um aluno perguntou-me se já tinha escrito uma crónica sobre o Euro 2004, pois já há tempos que não via nada meu no site do jornal na Internet. Disse-lhe que não e andei sempre, mas a pergunta ficou-me na cabeça o dia todo: por que é que não escrevi nada sobre o Euro? Porque não me apeteceu, porque achei que já havia gente a mais a falar e a escrever sobre os futebóis de Verão, incluindo gente que não sabe quantos lados tem uma bola, quanto mais distinguir um fora-de-jogo de um penalti…
Pois bem, cá estou eu a escrever sobre o Euro!
Pertenço a uma raça que não gosta de vitórias parciais e muito menos de vitórias morais.Aliás, quando vejo jogos da minha equipa fico contente com o primeiro e com o segundo golo, mas só faço festa quando chega o 3-0. Se for 3-1 não chega, pois dois golos de vantagem só dão descanso quando acaba o jogo. Não viram o que aconteceu à Holanda frente à República Checa?
Por aqui já se vê que não andei entusiasmado por aí além com o Euro. O mais perto que estive disso foi no Portugal – Inglaterra, candidato sério a melhor jogo do campeonato (nem sei se houve essa eleição). Festa, para mim, só no fim. Se a minha pouca fé na nossa selecção não deixava antever nada de bom, a derrota no jogo inaugural encarregou-se de levá-la toda por água abaixo, e nem a revolução com a Rússia a recuperou. Só comecei a acreditar que tínhamos mais qualquer coisa do que um grupo de jogadores com a vitória frente à Espanha. Mais do que a vitória, foi a demonstração de vontade e ganas de vencer que me fez sonhar. Frente à Inglaterra, o auge, frente à Holanda a confirmação do que já se sabia, e frente à Grécia o desmoronar de um edifício lindo que afinal não tinha alicerces…
Dito isto, está claro que não fui para a rua festejar o segundo lugar. Foi a melhor organização de sempre, e isso enche o país de orgulho. Foi a nossa melhor classificação de sempre num campeonato de selecções seniores? Sem dúvida. Mas o que interessa isso? Daqui a dez anos já ninguém se lembrará que Portugal e República Checa foram as mais espectaculares em campo. Quem precisar de ir ao livro só vai ver que os gregos foram campeões, porque despacharam portugueses, franceses e checos com uma eficácia assustadora. Dos fracos não reza a história, por isso não me venham pedir para festejar o facto de sermos os primeiros dos últimos. De vitórias morais estamos nós fartos, mas ainda bem que muito do povo vermelho amarelo e verde sentiu vontade de celebrar a classificação. Os jogadores e treinadores estão, apesar de tudo, de parabéns, mais não seja pelo facto sublime de terem unido a nação em torno de um objectivo comum: vencer.
Para um país habituado a perder, só por isso o Euro já teria valido a pena. Será que vamos conseguir tentar ganhar o Mundial daqui a dois anos? Estou pronto a festejar…

P. S. – Para quem ficou curioso, a bola tem dois lados: o de dentro e o de fora. E se não sabe a diferença entre um fora-de-jogo e um penalti, dedique-se à pesca…

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