quinta-feira, 1 de novembro de 2007

32 - Morreu um Eterno Estudante

Há professores que nos deixam marcas. Gostava de um dia ser lembrado assim...

Uma das coisas que mais me fascina num professor é a capacidade de falar sem constrangimentos com os seus alunos fora do espaço da sala de aula. É uma arte que alguns não compreendem, por verem os alunos como coisas e não como pessoas. Ao longo do meu percurso escolar tive professores assim, que dentro da sala eram uma coisa e na rua eram outra bem diferente. Se fosse preciso, fingiam que não nos viam… e nós, os alunos, víamos isso, comentávamos isso, e lamentávamos isso.
Todos os anos havia algum que se distinguia por conseguir ultrapassar a barreira entre o mestre e o discípulo, tornando-se algo mais do que um simples professor, um amigo com quem podíamos contar para resolver pequenos problemas escolares ou mesmo conversar um pouco no princípio ou no final da aula. Se fosse preciso, às vezes até se conversava durante a aula. Estes tinham o nosso respeito e, por inerência, a nossa colaboração, de maneira que as coisas corriam quase sempre bem dentro da sala. Os outros queixavam-se de que nós nos fechávamos em copas e que lhes fazíamos a vida negra em certas ocasiões. Pudera! Quem é que fala com alguém em quem não consegue confiar? Infelizmente, era mais vulgar encontrar um assim do que um da outra maneira, e se calhar ainda hoje é.
Dos outros não reza a história e ninguém os lembra, mas dos primeiros as memórias ficam, e quando partem fica a saudade. Conheci um destes Mestres muito antes de o ter como professor, por intermédio de meus pais, que tinham sido seus alunos. Habituara-me já a vê-los cumprimentá-lo alegremente na rua, a parar um pouco para conversar, recordar momentos do antigamente, e no Natal era sagrada a troca de cartões de Boas Festas. A tudo isto assistia e ficava a pensar o que teria ele de especial, e quantos dos meus antigos professores seriam capazes de conversar assim comigo. Sempre fui um bom aluno a quase tudo, não lhes dava chatices, se fosse preciso até lhes dava uma mãozinha, mas pura e simplesmente não os estava a ver dali a vinte ou trinta anos a cumprimentar-me calorosamente debaixo do olhar dos sinos da Sé.
Um dia, ou melhor, um ano, aconteceu. O antigo professor de meus pais tornou-se também meu professor, e pude tirar a limpo o que teria aquele homem de especial. Já estava na casa dos 60 anos, não era jovem nenhum no físico, mas era uma criança alegre no trato, com uma juventude de pensamento que nos conquistou desde o primeiro dia e um à vontade dentro da aula que impressionava. Tudo bem, a experiência ajudava, mas havia mais qualquer coisa, havia uma capacidade de comunicar com aqueles olhos brilhantes que nem as lentes dos óculos conseguiam esconder. Nunca as Técnicas de Tradução de Inglês foram tão fáceis como naquele ano lectivo 1992/1993.
Desde a primeira hora revelou-se à turma, e uma das primeiras coisas que explicou foi o facto de ser diabético, e disse-nos o que havíamos de fazer se por acaso lhe desse uma baixa de açúcar em plena aula, coisa que felizmente nunca chegou a acontecer. Revelou-se humano e igual a nós, não assumindo o papel de super-homem arrogante que muitos representam de cor e salteado, sem nunca chegarem a conhecer os alunos. O ser professor tem recompensas gratificantes para aqueles que se dedicam aos alunos, que os tentam compreender e ajudar…
O ser professor nunca foi uma das minhas prioridades, se calhar até pelo contrário, mas foi uma “vocação tardia” meia empurrada pelas circunstâncias, e quando chegou a altura de decidir a forma como ia encarar a miudagem, olhei para trás em busca de referências, e um dos primeiros que vi foi ele. Não sou um seu imitador, mas tento ser um seu seguidor na tarefa de ser um bom professor, um bom Eterno Estudante.
Foi por isso que recebi com pesar a notícia da partida definitiva do Professor Vítor Magalhães. Marcou gerações e, pelo que me disseram, essas gerações não o esqueceram e estiveram presentes na hora da despedida. Só não estive lá porque não pude, porque o ser Eterno Estudante em vida por vezes nos leva para longe.
Morreu um Eterno Estudante. Tornou-se, enfim, verdadeiramente Eterno.
Obrigado, Professor. Até sempre.

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