quinta-feira, 1 de novembro de 2007

33 - Nasci há dez anos

Escrito no décimo aniversário da minha entrada para a Universidade dos Açores.

Lembra-se de onde estava e o que estava a fazer há exactamente dez anos? 15 de Novembro de 1994? Não? Eu sim. Passam hoje exactamente dez anos desde que fui para a universidade.
Os meus colegas de então apenas se lembram deste dia porque eu não os deixo esquecer, coisa que eu nunca consegui entender. Foi um marco histórico nas nossas vidas, o momento, para muitos, em que os pais e a família deixaram de estar sempre “lá” quando era preciso e em que tivemos de nos unir para superar as dificuldades de uma vida nova e desconhecida. Perigosa, talvez, mas aliciante, sem dúvida. A esta hora, já todos aqueles meus colegas desse tempo a quem tenho a honra de poder chamar Amigos receberam uma mensagem no telemóvel (há dez anos não havia modernices destas…) a lembrá-los do dia, e a esta hora já eu recebi um monte de respostas. Faz agora um ano, uma das respostas dizia assim: “Só mesmo tu para te lembrares destas coisas. Até me vieram as lágrimas aos olhos.” Lágrimas de felicidade, de saudade dos bons momentos, lágrimas de cumplicidade, lágrimas por um amor que nunca se concretizou, lágrimas cheias de vida em cada gota que cai.
Foram dias de reforço de amizades, dias de fazer novos amigos, dias que formaram um grupo que hoje tenho uma pena imensa por não poder juntar à mesma mesa… Jorges, Joões, Paulos, Fred, Rui, Roberto, Cristina, Patrícia, Ana, Fernanda, Vera… sei onde estão hoje quase todos, uns mais casados outros menos, uns com mais sucesso outros menos, enfim, todos já com mais dez anos de experiência em cima, mas todos ainda jovens e, acima de tudo, com uma ligação emocional muito grande.
E eu? Dez anos depois, olho para trás e tenho tanta coisa que dizer, tantas boas e más recordações, tantas coisas pequenas que hoje digo que poderia ter feito de outra forma… mas será que se tivesse ido pela esquerda em vez de ir pela direita as coisas se teriam passado de outra forma? É uma daquelas perguntas sem resposta que nos acompanham toda a vida, sem que isso signifique arrependimento. Posso dizer que não me arrependo de nada do que fiz, isso é verdade, mas se calhar até tenho pena de não ter feito certas coisas. Uma coisa é certa: tudo o que fiz teve influência na construção de quem sou e do que faço. Há quem me olhe para o currículo e diga que não percebe como é que já estive metido em tanta coisa, mas eu não sei ser de outra forma. Parar é morrer, já dizia o outro…
O curioso de toda esta construção de vida é que há apenas uma coisa que fazia na vida pré-universitária que me acompanhou sempre, e que acabou há precisamente um ano atrás, que foi a organização de eventos relacionados com desporto automóvel. Tudo o resto, compreendo agora, acabou por surgir e interligar-se com esta faceta da minha “carreira”, que infelizmente já não existe mas que me abriu portas para entrar, por exemplo, no mundo da comunicação social especializada na matéria. Dou voltas e voltas à cabeça, e chego sempre a este ponto como um fio condutor de tudo, à excepção do curso que tirei e das profissões que exerço. São vidas paralelas! Uma só existe porque tem a outra a suportá-la, e no entanto elas nunca se tocam em termos de conteúdo. Uma é, na verdade, o trabalho, a outra é um passatempo altamente compensador em termos de fuga ao quotidiano. Para usar um termo muito em voga, é “desstressante”… ainda que o professor de Português me diga que “relaxante” é a palavra certa!
Pontos negativos destes dez anos? Também os há… a minha família encolheu sem que eu pudesse estar presente nos piores momentos (e isso é talvez a única coisa que nunca vou perdoar à vida!), mas a pior parte é mesmo o facto de em dez anos apenas ter estado em casa durante três (pensando melhor, esta eu também não vou perdoar…), apesar de nunca estar ausente mais de dois meses, na pior das hipóteses. Mas não é, nem pode ser, a mesma coisa.
No fundo, se hoje sou quem sou é à minha família que o devo, e isso é coisa que não se esquece, não se pode esquecer, e nunca se vai esquecer.
Há dez anos estava em São Miguel. Hoje estou nas Flores. E amanhã?
Vida, não me pregues mais nenhuma partida. Sabes bem onde e com quem quero estar!

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