Às vezes, escrever é uma coisa complicada. Quando vem de dentro, dói...
Peço desculpa a Shakespeare pelo meu título de hoje, mas não encontro melhor para exprimir o que vai cá dentro. Fiquei abismado quando, ao dar uma volta pelos arquivos de memória, constatei que há três meses não escrevia para o jornal, e fui confirmar as datas ao computador. Era verdade! Explicações para isso? Não é fácil…
A necessidade de escrever é menor, por um lado, devido ao novo projecto editorial que abracei, e que me ocupa as pontas dos dedos durante boa parte do tempo mas, por outro, motivos para teclar não faltaram desde o dia 15 de Novembro. O problema é que entre escrever o que me apetecia e deixar que outros lessem o que sentia vai uma distância que não é tão pequena como isso…
Para quem é professor em busca de poiso certo, esta é a altura em que todas as angústias vêm ao de cima. É ver a incerteza estampada na cara de quem concorre mais uma vez, sabendo de antemão que a vida está difícil e assim continuará, e sabendo também que “para o ano” não se sabe onde estarão aqueles que começam por ser colegas, passam a amigos, e depois até, quem sabe, algo mais. E, por aquilo que vejo, é justamente o “algo mais” que me preocupa. Não é fácil manter “algo” quando as pessoas estão separadas por muitos quilómetros de ar e mar, e conheço muito boa gente que prefere fazer de conta que não se passa nada só para que em Julho não haja cenas de baba, ranho e raiva perante uma vida que por vezes é estúpida que se farta…
Ricardo Reis, um dos heterónimos de Fernando Pessoa, defendia que “mais vale a amizade que o amor”, pois só assim se conseguiria atingir o estado de ataraxia, ou seja, de total paz de espírito. Mas haverá paz de espírito quando se tem “algo mais” ali ao lado e as celulazinhas cinzentas mandam fazer de conta que não se percebe? Não será isto o adiar do inevitável? Venha o Diabo e responda…
E depois há os outros, os que se estão nas tintas para as células cinzentas e só ligam às pulsações vermelhas. Esses aparentam ser felizes, mas também são mais susceptíveis de bater com a cabeça na parede e ficar pelos cantos a carpir mágoas. Entre estes, há os que conseguem estar a centenas de quilómetros de distância e manter a chama. Seja por telefone, por SMS, e-mail, Internet, por atestado, seja como for. E o mais espantoso é que por vezes dá certo! E há também quem esteja absolutamente farto de estar num sítio, diga cobras e lagartos, deseje fugir para nunca mais voltar, e consiga sair. Só que, entre uma coisa e outra, o bicho mordeu e já surgiu a hipótese de regressar ao lugar outrora tão detestado…
Devia ser nisto que Carlos Tê estava a pensar quando escreveu As Regras da Sensatez para a voz de Rui Veloso, ainda que a princípio pareça que é o contrário… nunca voltes ao lugar onde já foste feliz. Por muito que o coração diga, não faças o que ele diz…
Conclusão? Não há. Cada um tire a sua…
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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