Esta foi a primeira crónica a ser publicada no Diário Insular. Saí de A União porque o director achou que eu não valia o dinheiro que pedia para trabalhar (as crónicas faço de graça), e mudei-me para onde senti que as minhas capacidades eram valorizadas. Quase dois anos depois, sei que tomei a opção certa.
Sou um passageiro relativamente frequente da SATA. As minhas duas centenas de viagens ao longo dos últimos 13 anos falam por mim quanto à experiência como passageiro, e ao longo de todo este tempo já fui por várias vezes vítima do monopólio das ligações inter-ilhas, que acaba por eliminar a necessidade de se tratar os passageiros como pessoas. Já fui tratado como gado, já fui pura e simplesmente ignorado, a minha bagagem já foi ao Porto em vez de ir para as Flores, e por aí fora, mas uma falta de respeito por um passageiro como presenciei no passado domingo é coisa que nunca tinha visto.
Para não complicar, a história é esta: ao vermos a enorme fila para cumprir o ritual do raio-x no aeroporto de Ponta Delgada, eu e o meu companheiro de viagem fomo-nos deixando ficar à porta para aproveitar os últimos momentos com os amigos, e quando finalmente vimos que a hora se aproximava entrámos e pusemo-nos na fila. O passageiro imediatamente à minha frente, meu amigo pessoal, estava ali há uns bons 15 minutos, tinha sido o último a chegar, e ainda estivemos cerca de 5 minutos na conversa até chegar a nossa vez. Ele teve de tirar o computador para fora, eu passei sem problemas, e o meu colega foi parado na “revista”.
Enquanto ele abria a mochila, fui em frente e embarquei com o tal amigo, nem reparando que estávamos sozinhos, pois a revista demorou mais do que o previsto. Já no avião, estranhei a demora de dois ou três minutos, tempo durante o qual fui conversando com a assistente de bordo, também minha conhecida. Neste entretanto, fizeram a contagem e deram pela falta de uma cabeça. Antes que me manifestasse, a outra senhora disparou pelo corredor fora para confirmar o nome, altura em que informei a assistente de bordo com quem conversava de que o passageiro em falta viajava comigo e estava retido no raio-x. Nem trinta segundos depois, a outra senhora voltou e ordenou que a porta fosse fechada, “pois falta um sem bagagem”.
Protestei de imediato, mas obtive como resposta uma coisa do tipo “já estamos doze minutos atrasados”. Continuei a protestar e disparei logo que já tinha esperado muitas vezes horas pelos aviões atrasados e estava ali à mesma, ao que obtive como resposta um seco “os passageiros têm que estar na sala de embarque trinta minutos antes”. “Vá vender essa a quem não saiba o que é andar na SATA!” – foi a minha resposta, perante o espanto dos passageiros à volta face ao insólito da situação. De nada valeu. A porta fechou-se, os motores arrancaram, e eu calei-me por respeito aos outros passageiros, pois percebi que estava a falar com duas paredes e não tinha comigo um martelo.
Entretanto, no raio-x, a mesma mochila que na Terceira foi considerada inofensiva passou a ser vista como potencial ameaça terrorista por causa de um perfume e de uma pasta de dentes, que obrigaram a uma rápida viagem ao quiosque para comprar um saco de 60 cêntimos (ninguém controla esta exploração vergonhosa?), que foi colocado depois mesmo ao lado da bolsa onde estavam anteriormente os referidos produtos. Se fosse para mandar abaixo o avião, o resultado prático era o mesmo, não sei se estão a ver bem a diferença entre uma bolsa com fecho de braguilha e um saco de plástico… Sem perder tempo, o meu colega dirigiu-se à porta de embarque ainda a tempo de ver a escada a ser retirada do avião, e ficou em terra mais quatro horas. Por sorte, havia lugar no voo da noite, mas e se não houvesse?
Se ainda sou capaz de entender as preocupações com a segurança, e sou capaz de aceitar que mais valia ter entrado cinco minutos mais cedo (o resultado era o mesmo, pois a fila estava a passo de caracol devido ao embarque simultâneo para Lisboa), já não aceito a arrogância e a prepotência de quem estava a bordo. A triste e óbvia conclusão é que o meu colega foi desprezado por não ter bagagem, pois se tivesse seriam obrigados a retirá-la do porão, o que teria dado tempo e mais do que tempo para que ele chegasse. E quanto ao atraso de doze minutos, quem nunca esperou pelo menos meia-hora por um avião que se atrasou porque alguém estava na casa de banho levante a mão, por favor…
O Dr. Cansado bem pode escrever na revista de bordo que está muito empenhado na satisfação dos passageiros, que eu fico cansado só de o ler. Os seus próprios funcionários (alguns, pois também conheço muitos que considero profissionais na verdadeira acepção da palavra) é que não devem ler da mesma cartilha. Incompetência ou desrespeito, cada um tire as suas conclusões.
Quanto a mim, aprendi mais uma coisa nesta viagem: mais vale enviar um fardo de palha na bagagem do que ir de mãos vazias… é que nunca se sabe quando pode vir a dar jeito!
Nota: Como o leitor pode ver, o Eterno Estudante está de volta, depois de uns meses de descanso. A casa é outra, mas o espírito mantém-se. Até já.
Ser professor é ser um Eterno Estudante. Foi esta a ideia por trás da criação destas crónicas, publicadas nos jornais A União e Diário Insular, de Angra do Heroísmo. Há aqui textos para todos os gostos, desde o simples devaneio de ocasião até ao artigo de opinião, por vezes controverso, e em todos se sente o autor. Eu. E espero que se sinta também o leitor, pois tudo isto foi escrito para ser lido. E está tudo também em http://eternoestudante.no.sapo.pt/, com mais algumas coisinhas sobre mim...
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