quinta-feira, 1 de novembro de 2007

54 - Os Catrapilhas

Sabe o que é um catrapilha? E uma paleia? E uma opção política estratégica? Tem tudo a ver...

Há palavras assim, que nos saem pela boca sem pensarmos bem de onde vêm. É assim, e pronto. Desde miúdo que, quando vejo uma “paleia” (este nome não sei mesmo de onde veio… coisas de canalha, talvez), sei que os mais velhos lhe chamam “catrapilha”, e isso basta. Para quem ainda não percebeu, estou a falar daquelas máquinas grandes e amareladas que servem para carregar os camiões com terra, os “catrapilhas”.
O mundo da nossa língua tem coisas interessantes quando toca a marcas e designações comerciais, e esta é uma delas. Num tempo em que as máquinas deste tipo que para cá vinham eram todas da Caterpillar (é assim que se escreve…), cortesia dos americanos, não é de estranhar que este nome tão estranho tenha entrado no nosso vocabulário como sendo um sinónimo de “máquina-que-serve-para-carregar-terra-nos-camiões”, e de outras do mesmo género. Mais ainda, o tempo ensinou-me que a Caterpillar goza de uma invejável reputação de qualidade e fiabilidade nos seus produtos, e quando algo avaria também é conhecida por dar uma resposta pronta e eficaz.
Vem isto tudo a propósito da notícia, saída há já alguns dias, de que o representante desta marca tinha escolhido a Terceira como ponto nevrálgico da sua acção no arquipélago, montando por cá um escritório e mantendo um stock de peças capaz de responder às necessidades dos Grupos Central e Ocidental, se bem me recordo. Li, gostei do que li, e aguardei.
Aguardei que alguém com responsabilidades na vida política terceirense dissesse alguma coisa, mas nada. Aguardei que nos jornais surgissem reacções, mas nada. Aguardei que alguém do Governo Regional se pronunciasse a este respeito, mas também nada. Devo ter sido o único que achou graça à notícia, por isso estou a escrever isto.
Aos anos que andamos para aqui a bradar que a coisa mais lógica é que seja a Terceira a placa giratória de mercadorias para os Açores e para os grupos Central e Ocidental em especial (veja-se o caso dos combustíveis!), mas da parte de quem manda continuamos a não ter resposta e a ver tudo centralizado numa ponta do arquipélago, com todos os custos acrescidos que isso acarreta para as “ilhas de baixo”. Agora, de mansinho, chega uma empresa, que por acaso até é das maiores do mundo no seu ramo, e diz que vai fazer para o seu negócio, que é privado e assenta no lucro, aquilo que há muito devia ter sido feito para proteger aquilo que é público e não dá lucro: o dinheiro de todos nós. A qualidade das grandes empresas vê-se nestes “pequenos” pormenores, que há tanto tempo são defendidos em termos políticos por estas partes mas que a cegueira do poder não deixa sair das trevas da gaveta numa qualquer secretaria.
Há que tempos a Terceira já podia ter assumido esse papel de distribuidora, com vantagens de economia e rapidez para todos os açorianos! Ao invés, temos zonas industriais com potencial mas sem o investimento devido. A da Praia já podia ter o tal parque de combustíveis e uma gare de passageiros em condições, mas ainda nada está feito. A de Angra está para ali, com acessos em terra, sem o mínimo de condições para os empresários e respectivos clientes. Na ponta oriental, fez-se uma coisa parecida, com uma pequena diferença: ninguém pôs lá os pés sem que estivesse tudo pronto em termos de saneamento, electricidade e arruamentos…
E já agora, que estou com a faca afiada: alguém leu a Visão desta semana? A Terceira será que ainda existe no mapa, ou passou a ser mais um calhau ao lado dos Ilhéus das Cabras? Onde estão as Câmaras Municipais a dizer “não pode ser”? Onde está essa coisa insossa chamada Conselho de Ilha? Nós, os que cá habitamos e nos sentimos ofendidos por tantos esquecimentos “convenientes”, não temos outra voz sem ser estes artigos que aparecem às vezes nos jornais?
Às vezes apetecia-me mesmo era pegar num “catrapilha” e encher uma bolsa do aterro com lixo não-reciclável…

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