domingo, 8 de outubro de 2006

1 - Adeus ao escudo

Crónica publicada no primeiro dia útil em que Portugal passou a usar euros em vez de escudos. Foi a primeira de todas.

Realiza-se hoje o funeral do Escudo, entidade muito apreciada por todos os portugueses. Ao longo de mais de nove décadas, o Escudo soube granjear a simpatia de todos quantos nasceram no jardim à beira-mar plantado, sobrevivendo a todas as crises que se lhe atravessaram no caminho, desde as guerras mundiais à ditadura, com vários sobressaltos no caminho da democracia que hoje temos e à qual talvez não demos o devido valor. Mas que valor demos nós ao Escudo nos seus noventa e um anos de vida?
Se a Saudade é tida por muitos como a expressão máxima do Ser Português, não é menos portuguesa a célebre atitude de “só dar valor ao que se tem quando se deixa de ter”. Longe de querer aqui entrar num discurso de lamúrias face à morte do meu querido escudo, quero antes deixar perante o amigo leitor o testemunho sentido da minha relação de vinte e cinco anos com a moeda da República Portuguesa.
Quando nasci, já o Escudo tinha entrado na terceira idade, e quando finalmente comecei a ter idade para o tratar com as minhas mãos já era ele um septuagenário de respeito, que sempre tratei com a máxima reverência, pois não era coisa propriamente abundante em casa. Era com uma moeda de cinco escudos (daquelas prateadas, lembra-se?) que atingia alguns dos momentos altos de então, materializados na velhinha máquina de matraquilhos da Sociedade da Terra Chã, na altura ainda salão de cinema. Dia de sessão era dia de trinta escudos surripiados à contabilidade do café, mais os vinte que arranjava com as manhas da juventude. Uma nota verde de vinte escudos para o bilhete e o resto em moedas de cinco para um saco de batatas fritas e para jogar nos matrecos. Era um bom jogador à frente, mas nunca fui grande especialista na baliza. Era o tempo de ser Bento ou Damas a guardar as redes e Manuel Fernandes ou Nené na frente. Havia também Jordão, Carlos Manuel, Gomes e muitos outros que povoavam o nosso imaginário de então. Foram batalhas épicas no intervalo de filmes tão inesquecíveis como O Gato que Veio do Espaço ou o impagável Banana Joe, com um Bud Spencer tão porco e divertido como sempre.
Vieram depois os anos do Anexo, com os matraquilhos da Fanfarra a constituírem uma atracção irresistível enquanto não chegava a hora de apanhar a urbana. Cinco escudos já não davam, eram precisos dez, e o número de jogos teve de diminuir. Mesmo assim, lá aconteceram alturas em que o almoço foi mais fraco porque me distraí nas contas e porque a desforra não podia esperar. Por esta altura, era já o bilhar que começava a chamar a atenção, mas nunca achei graça aos relógios, que cobravam e cobravam sem que as bolas desaparecessem de cima da mesa. Felizmente, apareceu o Octaviano com a sua mesa de cem escudos o jogo, nem que levasse duas horas. Ao lado, os matraquilhos queriam já uma moeda de vinte, e a piada já não era a mesma. Para ir ao cinema à Recreio, dedicava-me a ganhar bilhetes nos concursos da Rádio Horizonte e do Rádio Clube. Foram dezenas! Domingo em que não tivesse bilhete era Domingo estragado. Até no dia em que me crismei fui ao cinema à tarde. Afinal, era pecado desperdiçar o bilhete, não é verdade?
Beber uma coca-cola na Jump já custava os olhos da cara, quando comparada com os cinco escudos dos matraquilhos, mas uma vez por outra lá se ia ter na Renault 4 do Abelha, que nunca levava menos de cinco pessoas. A mais, todos os que viessem eram bem-vindos... Já com idade para ter algum juízo, a aventura universitária levou-me para Oriente, onde aprendi definitivamente a contar os escudos e a manter as contas equilibradas. Nunca fui gastador, mas agora não tinha quem me controlasse e não os queria deixar ficar mal. Consegui.
Esquecer o Escudo? Como é que se esquece a moeda com que nos pagaram o primeiro ordenado? Eram vinte e cinco contos por um part time na Rádio Atlântida, mas era cá um orgulho saber que era já eu quem pagava o aluguer do quarto... por isso, chamem-me o que quiserem, mas vou ter saudades do Escudo. Desde que chegou o Euro, praticamente só pago com cartão, e admito que tenho ainda dificuldades em distinguir à primeira as novas moedas, mas com o tempo isso passa.
Agora não me venham é dizer que não têm saudades do Escudo...

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